O que acontece quando acaba o assunto que fez um influenciador famoso? | G1

O que acontece quando acaba o assunto que fez um influenciador famoso? | G1

O primeiro vídeo foi um sucesso e ultrapassou 40 mil visualizações, o que a incentivou a continuar produzindo. Logo, mais publicações tiveram audiência e empresas começaram a procurá-la para fechar parcerias.

Com a produção de conteúdo dando bons resultados e cada vez mais sobrecarregada pelo cargo de liderança que ocupava no mercado financeiro, setor em que atuava há 14 anos, ela decidiu deixar o emprego formal.

“Meu marido disse: ‘se continuar nesse nível, pede demissão. Vamos dar um jeito’. Foi o que eu fiz. Voltei da lua de mel e fui trabalhar na segunda-feira. O dia foi um inferno e, na terça, pedi demissão”, relembra.

Agora no g1

Ela passou a se dedicar integralmente à produção de conteúdo, mas logo se deparou com um novo desafio: reinventar o perfil depois do casamento. O tema que havia impulsionado seu crescimento nas redes perdeu espaço após a cerimônia, e ela precisou encontrar novos assuntos para manter o interesse do público.

A influenciadora passou a falar sobre temas variados, com foco em moda, viagens e estilo de vida. Mais recentemente, a pedido das seguidoras, também criou uma nova conta para ensinar conceitos básicos de finanças e investimentos.

Influenciadora Christy Cabrera fez sucesso nas redes após compartilhar os preparativos de sua cerimônia de casamento. — Foto: Arquivo Pessoal/Christy Cabrera

“Tem sido um período desafiador e de muito trabalho, mas tenho apostado em conteúdos nos quais acredito e que fazem sentido para mim. Muitas marcas me procuram, mas recuso algumas propostas porque acredito que não tenham relação com o meu conteúdo”, diz.

O que um casamento, o Enem e o BBB têm em comum?

Segundo Rafaela Lotto, CEO da Youpix, consultoria especializada em criadores de conteúdo digital, é natural que influenciadores que começaram em um nicho específico passem a abordar outros temas.

“É mais fácil para um criador ganhar tração quando começa em um nicho específico, mas isso não significa que o interesse da audiência não o leve a falar sobre outros temas”, diz a executiva.

Para Lotto, a capacidade de um criador se manter relevante depende menos do assunto em si e mais da relação construída com os seguidores.

Pesquisas indicam que, quanto mais especializado em um tema for o influenciador, maiores são suas chances de construir uma comunidade fiel e conquistar a confiança dos seguidores.

Uma pesquisa recente da Sprout Social, empresa especializada em gestão de redes sociais, mostra que 47% dos usuários levam em conta os temas abordados por influenciadores antes de decidir se vão segui-los ou não.

O estudo também mostra que influenciadores especializados levam vantagem sobre grandes perfis quando os usuários buscam aprender algo novo, encontrar recomendações confiáveis ou participar de uma comunidade ligada a um interesse específico.

Nesses casos, a criatividade e a capacidade de explorar um mesmo tema em diferentes formatos ganham importância. Um exemplo é Caio Barbosa, de 29 anos, conhecido nas redes sociais como “o garoto dos realities”.

Influenciador Caio Barbosa, conhecido nas redes sociais como ‘o garoto dos realities’. — Foto: Arquivo Pessoal/Caio Barbosa

Ele conta que começou a produzir conteúdo durante a pandemia de Covid-19. Na época, trabalhava como gerente de marketing de influência e viu nos realities uma oportunidade para falar sobre um tema pelo qual já era apaixonado.

Seu primeiro vídeo ultrapassou 1 milhão de visualizações e ajudou a ampliar rapidamente sua base de seguidores.

“Eu logo comecei a pensar nisso de forma mais estratégica, mas sou uma pessoa muito reservada e nunca imaginei expor minha vida na internet. Então minha saída foi me tornar referência em um nicho, e o universo dos realities era o tema sobre o qual eu mais tinha repertório”, relata.

Barbosa afirma que, mesmo adotando diferentes estratégias para falar sobre realities, há períodos específicos em que sua audiência dispara, especialmente nos primeiros meses do ano, durante o Big Brother Brasil.

“É nessa época que as coisas funcionam muito bem, porque páginas grandes e outros influenciadores começam a compartilhar meu conteúdo, o que me ajuda a alcançar outras comunidades além da minha”, afirma.

Quando o BBB termina, o influenciador passa a abordar realities de outros países, muitas vezes dando prioridade aos que contam com participantes brasileiros. “Faz alguns anos que adotei essa estratégia porque sei que os brasileiros, incluindo eu, defendem outros brasileiros com unhas e dentes”, diz.

Atualmente, “o garoto dos realities” soma mais de 1,3 milhão de seguidores no TikTok e no Instagram.

Estratégia semelhante foi adotada por Lucas Felpi, de 25 anos. Ele ficou conhecido entre 2018 e 2019 após citar a série “Black Mirror”, da Netflix, em sua redação nota 1 mil no Enem.

Influenciador Lucas Felpi, que ficou conhecido nas redes após citar a série “Black Mirror” em sua redação nota 1 mil no Enem. — Foto: Arquivo Pessoal/Lucas Felpi

Após a repercussão da nota máxima, muitos estudantes passaram a procurá-lo em busca de dicas e orientações para o exame. Mas, como o Enem ocorre em um período específico do ano, sua renda como criador de conteúdo oscilava bastante.

“Eu precisava fazer um planejamento anual levando em conta a sazonalidade do trabalho, porque muitas marcas não queriam investir em alguém que fala sobre Enem e vestibulares fora dos períodos de maior interesse pelo tema”, diz.

Para ampliar as possibilidades de conteúdo, ele buscou novas formas de abordar o tema. Além de dicas de estudo, passou a indicar filmes que poderiam ajudar na preparação dos candidatos e a explicar estratégias para diferentes etapas dos estudos.

Com o tempo, o influenciador também passou a abordar temas ligados ao seu novo momento de vida.

“Eu tive que me adaptar porque, no fim das contas, não usei a nota do Enem, já que fui estudar nos Estados Unidos. Então comecei a falar sobre esse processo, a dar dicas para quem queria estudar fora e a produzir vlogs mostrando a vida universitária no exterior”, afirma.

Lucas manteve uma produção frequente até alguns anos atrás, quando decidiu reduzir o ritmo das publicações para dedicar mais tempo à vida pessoal. Formado em engenharia da computação, hoje mora em Nova York e trabalha como engenheiro de software em uma grande empresa de tecnologia.

Ainda assim, publica todos os anos uma cartilha sobre o Enem e soma mais de 700 mil seguidores no Instagram e no YouTube.

E a monetização?

Transformar a produção de conteúdo em uma fonte de renda suficiente para viver ainda é um desafio para a maioria dos influenciadores. Dados da Youpix mostram que menos de um terço deles (29%) vive exclusivamente da criação de conteúdo, enquanto mais da metade (53,5%) concilia a atividade com um trabalho fixo.

De onde vem a renda dos influenciadores? — Foto: Arte/g1

Segundo a pesquisa, a maioria dos influenciadores que vive apenas da criação de conteúdo atua no mercado há mais de três anos, o que indica que alcançar essa condição costuma levar tempo.

Entre os entrevistados pelo g1, apenas Caio Barbosa afirma que a maior parte de sua renda mensal vem da criação de conteúdo.

Lucas Felpi afirma que a maior parte de sua renda vem do emprego fixo, em parte porque passou a publicar com menos frequência. “Foi uma escolha pensando também na minha vida pessoal. Além disso, percebi que, mesmo um pouco mais distante, as pessoas não se esquecem de mim”, diz.

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