Bernardo Augusto Rocha, de 11 anos, morreu após passar mal em escola de Bertioga (SP)
Arquivo pessoal e reprodução
A morte do menino Bernardo, de 11 anos, após levar uma bolada na cabeça e em seguida bater a “cabeça no chão ou na carteira” de uma escola municipal de Bertioga, no litoral de SP, acende o alerta para o que fazer após esse tipo de episódio. Neurologistas ouvidos pelo g1 destacam que qualquer trauma cerebral pode ser potencialmente perigoso, mesmo sem sangue aparente ou corte, dependendo da intensidade da pancada e da região afetada.
O crânio protege o cérebro de uma maneira como nenhum outro órgão é protegido. Estudos mostram que menos de 1% dos traumas cranianos em crianças geram sangramento cerebral. Porém, alguns traumas mais fortes especialmente na região das têmporas – próximas das orelhas – podem ser mais graves e levar à morte.
Menino de 11 anos morre após bolada na cabeça em escola no litoral de SP; família denuncia erro médico
O neurologista e professor de medicina da PUC-RS William Martins acredita que o menino tenha tido um trauma da bolada agravado pela queda, levando a um hematoma epidural: um rompimento de artéria que empurrou o cérebro para o lado e acabou causando um AVC.
O neurologista da USP e professor titular da Faculdade de Medicina do ABC Renato Anghinah acrescenta que, quando há situações de trauma na cabeça no esporte, é importante o atleta parar a atividade para evitar a chamada síndrome do segundo impacto, que aumenta em até 3% o risco de edema cerebral.
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Por que uma pancada na cabeça pode se agravar horas depois?
Na região das têmporas do cérebro, algumas artérias suprem a meninge, que é como uma pele protetora ao redor do cérebro. A artéria meníngea média fica bem embaixo do osso, por exemplo. Quando ocorre um trauma na região temporal, essas artérias podem se romper. A pessoa pode perder um pouco a consciência e depois voltar ao normal, mas o sangramento pode continuar ocorrendo.
O menino parece ter ficado bem e foi para a sala de aula. Isso é chamado na literatura médica de intervalo lúcido. A pessoa tem um trauma, conversa com o médico de forma consciente, não tem dor de cabeça, e depois entra em coma.
“Isso ocorre porque o sangramento vai ocorrendo de maneira bem gradual e pequena, mas chega um momento em que o cérebro não tem mais como compensar. Não tem para onde sair a pressão cerebral que empurra o cérebro para o lado. É o que a gente chama de herniação cerebral. Parte do cérebro vai pra baixo e comprime algumas artérias cerebrais”, explica Martins.
O médico destaca que, após traumas cerebrais, é sempre importante o paciente ficar em observação por 24 horas e não dormir em seguida.
Quais sinais de alerta exigem atendimento imediato?
Para evitar complicações de eventuais hemorragias cerebrais, é preciso observar alguns sinais, como:
Sonolência excessiva
Confusão
Perda de consciência, mesmo que breve
Vômito
Dor de cabeça
Dificuldade para falar
Fraqueza
Choro inconsolável
Caso o paciente tenha algum desses sinais, pode ser solicitada uma tomografia para avaliar um possível hematoma, que pode ser cirúrgico.
Martins explica que tomografias não são feitas em Unidades Básicas de Saúde, nem em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), mas estas geralmente encaminham o paciente para hospitais onde o exame é feito.
Às vezes, os hematomas crescem tão rapidamente que até mesmo dentro do hospital pode ser difícil salvar o paciente. Identificado o hematoma com a tomografia, já se inicia uma luta contra o tempo para iniciar a cirurgia e estancar o sangramento interno.
Martins acrescenta que em toda morte há parada cardiorrespiratória e essa não é a causa do óbito. A insuficiência respiratória é somente a via final comum de qualquer complicação, como uma pneumonia, embolia pulmonar, infecção sistêmica ou uma lesão cerebral, por exemplo.
“Provavelmente, a causa de óbito foi o trauma, porque o legista informou que houve uma hemorragia cerebral e um infarto cerebral importantes”, afirma Martins.
O neurologista acrescenta que traumas cerebrais graves em crianças são mais comuns em situações de queda de altura.
Entenda o caso
Segundo a família, Bernardo era uma criança saudável, sem histórico de problemas de saúde ou alergia a medicamentos. Após ser atingido por uma bolada durante uma atividade física na escola, ele voltou para a sala de aula, onde passou mal. Em seguida, caiu e bateu a cabeça “no chão ou na carteira”. A professora não estava na sala no momento, e os próprios alunos avisaram os funcionários, que acionaram o Samu.
Antes da chegada do socorro, um funcionário que já teria sido bombeiro tentou reanimar o menino. Depois, uma funcionária o levou de carro até a Unidade Bertioguense de Especialidades Médicas (Unibem), por ser o serviço de saúde mais próximo. A família questiona o atendimento prestado na unidade e afirma que um erro durante a intubação teria prejudicado a respiração de Bernardo e agravado seu estado.
Posteriormente, o Samu assumiu a ocorrência e o transferiu ao Hospital de Bertioga, onde a morte foi constatada após cerca de 40 minutos de tentativas de reanimação. Os parentes também pediram acesso às imagens da escola para esclarecer como ocorreu a queda.
Um exame preliminar do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Bernardo teve um “aneurisma na cabeça”, que evoluiu para um infarto, enquanto o atestado de óbito registrou “insuficiência respiratória” como causa da morte. Exames complementares ainda estão em andamento.
Em nota, a Prefeitura de Bertioga informou que o menino recebeu atendimento imediato na Unibem, com início dos protocolos de emergência e reanimação antes da transferência ao hospital, lamentou a morte e prestou solidariedade à família, mas não respondeu ao questionamento sobre a denúncia de falha no atendimento médico.
Hospital Municipal de Bertioga, SP
Renato Inácio
Morte de menino após bolada na cabeça em escola no litoral de SP acende alerta para sinais de trauma cerebral
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