Jornal de Minas
17/10/2026

Mais diagnósticos significam mais casos? O que os dados sobre TDAH e autismo conseguem mostrar

por Redação
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Mais diagnósticos significam mais casos? O que os dados sobre TDAH e autismo conseguem mostrar
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A proporção de jovens de 16 a 24 anos com transtornos mentais comuns aumentou significativamente nas últimas três décadas no Reino Unido. Em 1993, aproximadamente um em cada seis jovens apresentava essas condições. Em 2024, a proporção chegou a um em cada quatro. Ao mesmo tempo, os diagnósticos registrados de autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) cresceram mais de 20 e seis vezes, respectivamente, em determinadas faixas etárias.
Os dados fazem parte de uma revisão independente sobre saúde mental, autismo e TDAH, liderada pelo professor Peter Fonagy, publicada na última sexta-feira (9). O relatório analisa o aumento dos problemas de saúde mental, as mudanças nos diagnósticos e os desafios enfrentados pelos serviços de atendimento no Reino Unido.
Entre os principais resultados e avaliações destacados por especialistas estão:
Aumento dos transtornos mentais: enquanto problemas relacionados à ansiedade, preocupação, pensamentos depressivos e pânico se tornaram mais frequentes entre os jovens, a irritabilidade diminuiu e os problemas de conduta permaneceram estáveis.
Crescimento dos diagnósticos de autismo e TDAH: os registros aumentaram, respectivamente, mais de 20 vezes e mais de seis vezes em determinadas faixas etárias. Especialistas lembram que essas condições foram historicamente subdiagnosticadas, deixando muitas pessoas sem identificação adequada durante anos.
Excesso ou falta de diagnósticos: pesquisadores afirmam que as duas situações podem ocorrer simultaneamente. O crescimento dos registros não significa necessariamente que todas as pessoas que precisam de atendimento estejam sendo identificadas.
Dificuldade de acesso ao tratamento: dados do Escritório Nacional de Auditoria britânico indicam que apenas cerca de um quarto das crianças com provável condição de saúde mental consegue acessar serviços financiados pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS).
Risco de restringir atendimento: especialistas alertam que priorizar apenas pacientes com dificuldades mais graves pode deixar sem assistência pessoas autistas ou com TDAH cujas necessidades são menos evidentes.
Inteligência artificial na saúde mental: ferramentas digitais podem contribuir para o atendimento, mas não devem substituir profissionais de saúde, especialmente em situações de risco.
Sem base científica, Trump cita autismo e ‘risco de morte’ ao reduzir vacinação infantil
A principal recomendação da revisão é uma mudança na maneira como os serviços de saúde, educação e assistência social oferecem ajuda. Em vez de depender exclusivamente de diagnósticos formais, o sistema deveria considerar as necessidades individuais e permitir que as pessoas recebam apoio mais rapidamente.
A proposta recebeu avaliações positivas de especialistas ouvidos pelo Science Media Centre, organização britânica independente que reúne comentários científicos sobre temas de interesse público. Mas os pesquisadores ressaltam que a mudança dependerá da ampliação dos serviços e da disponibilidade de profissionais qualificados.
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o crescimento dos registros está relacionado a fatores como maior conscientização, mudanças nos critérios diagnósticos e identificação de pessoas que anteriormente passavam despercebidas pelos serviços de saúde.
O psiquiatra de crianças e adolescentes e professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Polanczyk afirma que há um aumento dos diagnósticos de transtornos mentais, incluindo autismo e TDAH, em todo o mundo. Alguns estudos de prevalência também sugerem um crescimento do número de pessoas afetadas, mas as pesquisas nesse sentido ainda são mais limitadas.
O neurologista infantil Felipe Kalil, professor da Escola de Medicina da PUC-RS e coordenador do Serviço de Neurologia Infantil do Hospital Moinhos de Vento, acrescenta que os avanços na capacidade de identificar essas condições ajudam a explicar parte do crescimento observado.
Para os especialistas, a questão central não é simplesmente descobrir se existem diagnósticos demais ou de menos, mas entender quem realmente apresenta essas condições, quem está sendo identificado corretamente e quantas pessoas continuam sem acesso ao acompanhamento necessário.
Aumento dos transtornos mentais entre jovens é real, dizem pesquisadores
Um dos pontos centrais da revisão é a constatação de que o crescimento dos problemas de saúde mental entre jovens não pode ser explicado apenas por uma maior disposição das pessoas para falar sobre seus sintomas.
O aumento, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme entre os diferentes sintomas e comportamentos.
Problemas relacionados à preocupação, ansiedade, pensamentos depressivos e pânico se tornaram mais frequentes. Por outro lado, a irritabilidade diminuiu, enquanto os problemas de conduta permaneceram estáveis.
Uma pessoa pode apresentar sofrimento emocional sem necessariamente preencher os critérios clínicos para um transtorno mental. Da mesma forma, alguém pode precisar de apoio mesmo sem ter recebido um diagnóstico formal.
Diagnósticos de autismo e TDAH cresceram mais de 20 e seis vezes
Outro ponto de destaque da revisão é o crescimento expressivo dos diagnósticos registrados de autismo e TDAH.
Em alguns grupos, o número de diagnósticos registrados já se aproxima ou ultrapassa as estimativas de prevalência dessas condições na população.
O cenário alimenta discussões sobre a possibilidade de diagnósticos excessivos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que o aumento dos registros não significa, necessariamente, que mais pessoas estejam recebendo diagnósticos indevidos.
Polanczyk explicou ao g1 que, embora o crescimento dos diagnósticos seja evidente, ainda não está claro se houve um aumento proporcional do número de pessoas afetadas na população.
“Hoje, quando a gente faz diagnóstico, a gente está fazendo com outros critérios que de fato inclui um número que inclui pessoas com habilidades e dificuldades mais leves do que no passado”, explica.
Por isso, comparar o aumento dos diagnósticos registrados com estimativas consideradas estáveis pode produzir uma interpretação equivocada sobre a existência de diagnósticos excessivos.
O que mudou na forma de diagnosticar autismo e TDAH?
Uma das principais explicações para o aumento dos diagnósticos está na transformação dos critérios utilizados para reconhecer essas condições.
Polanczyk explica que, no caso do autismo, uma mudança importante ocorreu em 2013, com a publicação da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
A partir dessa atualização, passou-se a adotar uma compreensão mais ampla do transtorno do espectro autista (TEA), incluindo pessoas com alterações na comunicação e padrões de comportamento rígidos ou repetitivos que apresentam manifestações menos intensas.
Na prática, isso significa que pessoas que anteriormente não preenchiam os critérios para receber o diagnóstico passaram a ser reconhecidas dentro do espectro.
“No momento em que a gente muda a forma de diagnosticar o autismo, é difícil comparar as taxas de hoje com as taxas do passado. Mas, sem dúvida, o número de diagnósticos aumentou”, afirma Polanczyk.
O avanço das estratégias de triagem, a maior conscientização da população e a ampliação do acesso aos serviços de saúde também contribuíram para que crianças e adolescentes que antes poderiam passar anos sem diagnóstico fossem identificados.
Isso, porém, não exclui completamente a possibilidade de um crescimento real da prevalência.
“É possível que exista também algum aumento real relacionado a fatores genéticos e ambientais. Portanto, o crescimento observado nos diagnósticos provavelmente reflete uma combinação de melhora da triagem, maior acesso aos serviços de saúde e reconhecimento mais precoce”, acrescenta Kalil.
Há excesso de diagnósticos ou pessoas sem atendimento?
Os especialistas ressaltam que o excesso e a falta de diagnósticos não são situações necessariamente excludentes. Ambas podem ocorrer simultaneamente, inclusive dentro de um mesmo sistema de saúde.
No caso de autismo e TDAH, o crescimento dos registros levanta questionamentos sobre a relação entre diagnósticos e necessidades clínicas. Já em condições como ansiedade e depressão, muitas pessoas continuam sem identificação e assistência especializada.
Polanczyk afirma que é possível encontrar contextos específicos em que os diagnósticos e os tratamentos superam as estimativas de prevalência.
Ele cita estudos realizados nos Estados Unidos que identificaram taxas de uso de medicamentos estimulantes superiores à prevalência estimada de TDAH em determinados grupos.
Esses resultados podem indicar situações de diagnóstico ou tratamento excessivo. Entretanto, o psiquiatra ressalta que esse cenário não representa necessariamente a realidade da população como um todo.
No Brasil, por exemplo, as desigualdades de acesso aos serviços especializados são um obstáculo importante.
Segundo Polanczyk, estimativas produzidas por seu grupo de pesquisa em São Paulo e Porto Alegre, há cerca de cinco anos, apontaram que aproximadamente 80% dos adolescentes com diagnóstico de transtorno mental não recebiam tratamento.
Ele também cita estudos realizados em países de baixa e média renda nos quais a proporção de pessoas sem tratamento varia entre 60% e 80%. Em alguns contextos, pesquisas identificaram percentuais ainda maiores de pessoas sem diagnóstico e sem assistência.
O especialista destaca que a percepção de excesso de diagnósticos muitas vezes está associada à realidade das grandes cidades e à exposição do tema nas redes sociais.
Em outras regiões, especialmente no Norte e Nordeste do Brasil, a escassez de serviços especializados representa um problema muito mais evidente.
Para Polanczyk, embora possa haver excesso de diagnósticos em determinados grupos ou localidades, a principal preocupação em termos populacionais continua sendo a dificuldade de acesso à assistência.
Mais diagnósticos também significam mais acesso a benefícios
Outro fator apontado por Polanczyk é a importância que o diagnóstico passou a ter para garantir direitos e adaptações em diferentes ambientes.
Segundo ele, o reconhecimento formal de autismo ou TDAH pode facilitar o acesso a tratamentos, adaptações escolares, condições específicas para a realização de provas e ajustes no mercado de trabalho.
Isso contribuiu para aumentar a procura por avaliações. O problema, de acordo com o psiquiatra, é que muitas dessas adaptações podem ser necessárias mesmo quando a pessoa não preenche todos os critérios para um transtorno.
Entretanto, a organização dos sistemas educacional e judicial frequentemente condiciona o acesso a esses recursos à apresentação de um diagnóstico médico.
Polanczyk explica que essa exigência cria uma situação em que profissionais podem se sentir pressionados a estabelecer um diagnóstico para garantir que uma pessoa receba o suporte de que necessita.
Como consequência, os registros podem crescer sem que isso represente necessariamente um aumento equivalente da prevalência.
Para o especialista, trata-se de uma tensão ainda não resolvida: como garantir cuidados e adaptações para quem precisa sem transformar o diagnóstico psiquiátrico na única forma de acesso a esses recursos?
Quais são os riscos de um diagnóstico equivocado?
O aumento da conscientização sobre autismo e TDAH pode contribuir para a identificação de pessoas que precisam de acompanhamento. Mas os especialistas alertam que reconhecer sinais não é o mesmo que estabelecer um diagnóstico.
Kalil explica que a avaliação deve considerar critérios clínicos bem estabelecidos, a história do desenvolvimento e o impacto dos sintomas na vida da criança. Não basta identificar comportamentos isolados ou obter determinado resultado em um questionário de triagem.
Segundo o neurologista, diagnósticos inadequados podem provocar rotulação, ansiedade, intervenções desnecessárias e interpretações equivocadas sobre as dificuldades apresentadas.
Polanczyk acrescenta que, no caso do TDAH, um diagnóstico incorreto pode levar ao uso de medicamentos sem uma indicação clínica apropriada.
Embora os riscos dos estimulantes sejam considerados baixos quando existe indicação adequada, qualquer medicamento pode provocar efeitos indesejados. Para pessoas que não apresentam o transtorno, esses riscos podem não ser compensados por benefícios.
O psiquiatra também chama atenção para as consequências de intervenções psicoterapêuticas desnecessárias, que podem exigir tempo e recursos financeiros.
Na rede pública, a utilização de serviços especializados por pessoas que não precisam deles também pode reduzir a disponibilidade de atendimento para outros pacientes.
Há ainda possíveis impactos na maneira como crianças e adolescentes passam a compreender a própria identidade a partir de um diagnóstico equivocado.
“O objetivo não deve ser diagnosticar mais ou menos, mas suspeitar e diagnosticar melhor: reconhecer precocemente quem precisa de acompanhamento, sem transformar dificuldades normais do desenvolvimento em transtornos”, afirma Kalil.
Diagnóstico tardio também pode trazer consequências
Se o diagnóstico excessivo representa um risco, deixar de identificar pessoas que realmente apresentam autismo ou TDAH também pode provocar prejuízos importantes.
Segundo Kalil, o diagnóstico tardio pode prolongar dificuldades de aprendizagem, comunicação, comportamento, interação social e autoestima.
Em crianças e adolescentes, essas dificuldades podem aumentar o sofrimento emocional e comprometer a vida escolar e familiar.
Polanczyk destaca que existem evidências consolidadas sobre os benefícios de intervenções precoces, especialmente no autismo.
Isso ocorre porque determinadas fases do desenvolvimento cerebral apresentam maior plasticidade, favorecendo a resposta a estímulos ambientais e intervenções terapêuticas.
O psiquiatra explica que esse período pode ser especialmente importante para o desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais.
No caso do TDAH, a relação entre início precoce do tratamento e melhores resultados é mais complexa, porque os quadros identificados mais cedo frequentemente são também os mais graves.
Ainda assim, o especialista ressalta que a ausência de acompanhamento pode permitir o acúmulo de dificuldades ao longo da vida. Ele também menciona evidências de maior risco de depressão e suicídio entre pessoas que recebem diagnósticos tardios.
O vice-presidente da Associação Nacional para a Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil) e pesquisador sobre desinformação sobre autismo na América Latina Arthur Ataide acrescenta que muitas pessoas chegam à vida adulta carregando uma história de incompreensão.
Foram crianças consideradas desatentas, indisciplinadas, estranhas, preguiçosas, desinteressadas ou pouco esforçadas. Algumas aprenderam, durante anos, que precisavam esconder determinadas características para conseguir participar dos espaços sociais”, afirma.
Isso pode contribuir para autoisolamento, dificuldade para construir e manter amizades, ausência ou redução importante de círculos de interação social, além de uma sensação persistente de não pertencimento.
“Há adultos que chegam aos serviços de saúde ou de educação relatando que passaram grande parte da vida sem compreender por que estabelecer relações, permanecer em determinados ambientes ou acompanhar as expectativas sociais parecia tão difícil”, destaca.
Essas consequências também podem aparecer na trajetória educacional e profissional. Crianças e adolescentes que não encontram formas adequadas de participação podem apresentar sofrimento escolar, afastamento, desengajamento e evasão.
Mais tarde, isso pode se expressar na dificuldade de ingressar e permanecer no ensino superior e no mercado de trabalho, segundo Ataide.
Por isso, os especialistas defendem que a identificação precoce seja acompanhada de avaliações cuidadosas e de intervenções adequadas às necessidades individuais.
Relatório propõe atendimento mesmo sem diagnóstico formal
Uma das principais recomendações da revisão é reorganizar os serviços para que o acesso ao apoio não dependa exclusivamente de um diagnóstico formal.
Na prática, isso permitiria que pessoas com dificuldades relacionadas à saúde mental, ao autismo ou ao TDAH recebessem apoio antes mesmo da conclusão de uma avaliação diagnóstica.
Para isso, os setores de saúde, educação e assistência social precisariam desenvolver maior flexibilidade e capacidade de identificar as necessidades de cada pessoa, sem deixar de reconhecer a importância das avaliações clínicas.
Miranda Wolpert, diretora de Saúde Mental da Wellcome, considera que a revisão representa uma contribuição importante para enfrentar o crescimento dos problemas de saúde mental.
Segundo ela, os avanços dependerão da ampliação de intervenções baseadas em evidências científicas, especialmente para as pessoas que mais precisam.
“Isso significará que as pessoas receberão ajuda mais cedo, reduzindo os impactos de longo prazo em sua educação, emprego e saúde”, afirma Wolpert.
Thea Stein, diretora executiva da Nuffield Trust Health, também avalia positivamente a proposta.
Para ela, os sistemas de atendimento passaram a exigir demais do diagnóstico e fizeram pouco para oferecer o apoio prático necessário às pessoas que enfrentam sofrimento psicológico.
A especialista ressalta, entretanto, que mudar os critérios de acesso não será suficiente se os serviços não tiverem condições de atender à demanda. A transição para um modelo baseado nas necessidades individuais só funcionará se o apoio estiver efetivamente disponível para quem precisa.
O que os números mostram sobre o autismo no Brasil?
Embora a revisão tenha analisado o cenário britânico, especialistas brasileiros destacam que a dificuldade de interpretar o crescimento dos diagnósticos também está presente no país.
Os dados nacionais ainda são escassos e recentes. O Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que aproximadamente 1,2% da população brasileira tinha diagnóstico de transtorno do espectro autista.
Kalil ressalta, entretanto, que esse percentual pode estar subestimado devido à existência de pessoas que ainda não receberam diagnóstico.
O especialista considera possível que a prevalência seja de aproximadamente 2% ou mais da população.
Nos Estados Unidos, Kalil cita dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) segundo os quais cerca de uma em cada 31 crianças de 8 anos foi identificada com autismo.
Os números reforçam a importância de distinguir a quantidade de pessoas diagnosticadas da prevalência real da condição.
No Brasil, Polanczyk destaca que regiões com maior acesso a avaliações médicas podem registrar mais diagnósticos sem que isso signifique, necessariamente, uma prevalência maior de autismo ou TDAH.
Inteligência artificial pode ajudar, mas não deve substituir atendimento humano
A revisão também analisa o potencial das tecnologias digitais e da inteligência artificial na assistência à saúde mental.
Embora reconheça que essas ferramentas podem contribuir para ampliar o acesso a determinados serviços, o relatório recomenda cautela em sua utilização.
Evidências mostram que intervenções digitais acompanhadas por profissionais apresentam resultados melhores do que aquelas utilizadas sem orientação.
As ferramentas não supervisionadas também enfrentam dificuldades para manter o envolvimento dos usuários durante períodos prolongados.
O relatório observa que algumas terapias digitais regulamentadas já receberam recomendações condicionais do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido (NICE).
Entretanto, as recomendações relacionadas às tecnologias digitais ainda são classificadas como sustentadas por evidências moderadas ou emergentes.
A revisão defende que ferramentas que prometem benefícios clínicos sejam avaliadas de acordo com padrões apropriados para intervenções de saúde. Também estabelece uma ressalva importante: a inteligência artificial nunca deve ser a única resposta oferecida a uma pessoa em situação de risco.
Um dos exemplos analisados envolve um sistema digital de triagem que apresentou bom desempenho técnico, mas benefício limitado para a organização do atendimento.
Isso ocorreu porque os critérios utilizados para identificar pacientes prioritários eram excessivamente restritos e concentrados em situações de crise.
Como consequência, muitas pessoas com comprometimentos significativos acabavam encaminhadas para a mesma fila de espera, sem uma diferenciação adequada de suas necessidades.
O exemplo demonstra que a eficiência técnica de uma ferramenta não garante, por si só, melhorias na assistência.
Pesquisadores alertam também que modelos de inteligência artificial treinados com dados clínicos históricos podem reproduzir desigualdades já existentes nos serviços de saúde.
Mudança no atendimento depende de mais profissionais e recursos
Embora a revisão proponha uma transformação na forma como os serviços identificam e atendem pessoas com problemas de saúde mental, os especialistas ressaltam que as recomendações dependem da capacidade de implementação.
A ampliação dos serviços, a disponibilidade de profissionais qualificados e a oferta efetiva de apoio são condições necessárias para que a mudança produza resultados.
Para os pesquisadores, a principal contribuição do relatório é deslocar o foco do debate: mais importante do que discutir exclusivamente se existem diagnósticos excessivos é identificar se as pessoas que realmente precisam de ajuda estão sendo reconhecidas e recebendo atendimento em tempo adequado.

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