Os primeiros jingles da campanha presidencial de 2026 já foram divulgados nas redes sociais e apresentados em eventos partidários.
As músicas antecipam o tom que os candidatos pretendem imprimir à disputa eleitoral, que começa oficialmente em 16 de agosto.
O g1 reuniu e analisou as principais faixas dos cinco pré-candidatos mais bem colocados na última pesquisa Quaest, divulgada em 5 de agosto.
Lula (PT) tem releitura de funk dos anos 1990 sobre sua trajetória; Flávio Bolsonaro (PL) tem sertanejo universitário sobre fé; Renan Santos (Missão) tem rocknejo em resposta ao “Lula Lá”; e Ronaldo Caiado (PSD) tem pop sobre combate à “bandidagem”.
Romeu Zema (Novo) é o único entre os cinco que ainda não tem jingle divulgado, segundo sua equipe.
Em geral, os candidatos lançam várias faixas durante o período eleitoral e escolhem uma ou duas como carros-chefes da campanha. Ouça e conheça as principais 👇:
Lula: versão de funk dos anos 90
O principal jingle da campanha de Lula (PT) à reeleição foi publicado nas redes sociais do presidente em 26 de julho. A música faz uma releitura do “Rap do Silva”, clássico do funk consciente dos anos 1990 gravado pelo MC carioca Bob Rum.
Na versão original, a letra conta a história de um trabalhador morto injustamente durante um baile funk. “Era só mais um Silva que a estrela não brilha. Ele era funkeiro, mas era pai de família.”
Na adaptação, a narrativa é ressignificada para associar o sobrenome de Luiz Inácio Lula da Silva ao símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT): “Era só mais um Silva com a estrela que brilha. Ele é brasileiro, trabalhador e família”, diz o início da faixa. Depois, o verso vira: “É o Lula da Silva, é a estrela que brilha”.
O clipe reúne colagens de fotos e imagens de arquivo que reconstroem a trajetória de Lula, desde o nascimento no agreste de Pernambuco até diferentes momentos de sua carreira política, incluindo a chegada à Presidência e a prisão em Curitiba.
A narrativa apresenta esses episódios como parte de uma trajetória de superação, reforçada por versos como: “Tentaram derrubar, tentaram lhe calar. Enfrentou o sistema, fez o povo prosperar”.
Segundo a comunicação da campanha, a música é interpretada por um cantor profissional, que não teve o nome divulgado. A equipe também afirmou que o funk foi escolhido pelo alcance entre o público jovem das periferias urbanas.
“O jingle tenta explorar a imagem de uma liderança ‘nata’ que atrai multidões. Adiciona o elemento “família” como um contraponto aos candidatos da direita que se valem classicamente desse fator dentro da agenda política. Além disso, chama atenção o verso ‘Não abaixa a cabeça, sempre defende a nação’, que remete à defesa da soberania nacional como um elemento discursivo que deverá ser explorado ao longo da campanha”, analisa a cientista política Priscila Lapa.
Flávio: sertanejo que convoca a fé
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) já divulgou diferentes jingles nas redes sociais e em eventos, mas trata “Vem com Fé” como a principal aposta até aqui.
A música foi criada por Alexandre Oltramari e Rafael Rizzo, integrantes da equipe de marketing do candidato, que a definem como “uma exaltação da fé para retomar a confiança do Brasil”.
Lançada em 5 de junho, a faixa começa com uma introdução que remete ao louvor moderno no estilo “worship”. Em seguida, muda de direção e passa a lembrar um sertanejo universitário, com um refrão construído para ser cantado em coro.
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A letra evita referências a adversários ou propostas específicas e aposta em uma mensagem de tom emocional. O refrão repete expressões que reforçam um otimismo em relação ao futuro do país, como “vem com fé”, “pode sonhar” e “pode acreditar”.
Questionada pelo g1, a equipe do candidato não informou quem interpreta a música nem quem assina sua produção. Também não respondeu se houve uso de inteligência artificial.
O clipe intercala imagens de Flávio ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do pré-candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro, e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com cenas de pessoas não identificadas, como um indígena, crianças negras jogando futebol e um fiel beijando um crucifixo.
“As imagens exploram a presença de símbolos cristãos, as cores da bandeira nacional e elementos que representam o agronegócio. Buscam, ainda, ressaltar a “leveza” da imagem do candidato, que aparece várias vezes dançando, sorrindo e perto de pessoas jovens”, analisa a cientista política Priscila Lapa.
Renan: rocknejo em resposta ao PT
Renan Santos (Missão) apresentou seu jingle durante a convenção nacional que confirmou sua candidatura, no sábado (1º). Batizada de “A Vingança do Povo”, a música foi concebida, segundo a equipe do candidato, como uma resposta ao “Lula Lá”, canção que marcou a candidatura de Lula à Presidência em 1989.
O próprio Renan assina a composição e interpreta a faixa.
De acordo com a coordenadora da campanha, Amanda Vettorazzo, a sonoridade foi pensada como uma mistura de “The Killers com Ana Castela”. Ainda segundo ela, o rock faz referência à trajetória do candidato, que tem uma banda do gênero, enquanto o sertanejo busca aproximá-lo do eleitorado ligado ao agronegócio.
Já a letra faz oposição direta a símbolos associados ao PT. Em um dos trechos, afirma que “a estrela não vai brilhar porque de vermelho é o sangue dessa gente que eles matam sem parar”. Ao longo da música, os versos contrapõem repetidamente a “estrela” ao “sol”.
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O próprio Renan explicou o significado da metáfora. “É a superação da estrela do PT. O nosso sol vai superar a noite deles. É um jingle otimista”, afirmou.
Exibido durante a convenção, o videoclipe, produzido inteiramente com inteligência artificial, adota estética de mangá e anime para narrar a história de um menino que luta contra estrelas no céu.
“As imagens exploram os elementos clássicos da direita, como a evocação da bandeira nacional. Já a letra, ao mesmo tempo que apresenta uma mensagem de esperança, faz alusão a emoções negativas como a “vingança”. O jingle faz ainda uma associação entre essa “vingança do povo” a um “despertar divino”, demonstrando a visão de mundo do candidato”, analisa a cientista política Priscila Lapa.
Caiado: pop contra a ‘bandidagem’
Ronaldo Caiado (PSD) apresentou seu primeiro jingle de campanha durante a convenção nacional do partido, em 26 de julho, que oficializou sua candidatura à Presidência.
A música, “Esse Cara é Caiado”, aposta em uma sonoridade que remete ao pop. Segundo o marqueteiro Paulo Vasconcelos, a escolha por esse estilo buscou alcançar eleitores “do Ceará ao Rio Grande do Sul” e apresentar o candidato ao país. Gravado em estúdio, o material, segundo ele, foi produzido “sem IA”.
A letra é construída em torno da repetição do refrão “Esse cara é Caiado”, que associa o candidato a atributos como “honesto”, “decente” e “homem de palavra”.
Expressões como “bandido não se cria” e “Caiado briga para acabar com a bandidagem” aparecem ao lado de promessas ligadas à saúde, como a construção de hospitais.
A letra ainda contrapõe o candidato aos adversários ao afirmar que “ele briga pelo povo, os outros brigam por poder”. O jingle ainda não tem videoclipe.
“A faixa coloca o candidato no centro da narrativa para que sejam ressaltadas as suas características, como coragem e, ainda, sua capacidade de gestão, como no verso ‘o mais elogiado governador do país’. Também usa a estratégia da repetição do nome do candidato e do número da urna para que o eleitor memorize as informações com facilidade em uma fórmula clássica do marketing político”, analisa a cientista política Priscila Lapa.
Lula, Flávio Bolsonaro, Renan e Caiado já têm jingles circulando antes do início oficial da campanha presidencial; Zema ainda não. g1 analisou as letras, os clipes e as referências de cada uma delas.
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