‘Fechar a torneira’: como funcionam os tratamentos experimentais que Lito busca para tentar frear doença rara

‘Fechar a torneira’: como funcionam os tratamentos experimentais que Lito busca para tentar frear doença rara


Lito faz apelo urgente por tratamento experimental
Reprodução/Instagram
O influenciador Lito Sousa, que descobriu que tem a doença de Creutzfeldt-Jakob, está em busca de acesso a tratamentos experimentais. A doença é rara, não tem cura, evolui rapidamente e compromete ao mesmo tempo a cognição e os movimentos do paciente.
Neste domingo (23), Lito publicou um vídeo em inglês nas redes sociais pedindo que seu caso seja avaliado com urgência por institutos de pesquisa e farmacêuticas que pesquisam substâncias contra doenças priônicas — do mesmo tipo da Creutzfeldt-Jakob.
➡️ A mobilização cita dois estudos diferentes, ambos nos Estados Unidos, em fase inicial e que ainda não tiveram a eficácia comprovada. Nas pesquisas, eles se propõem a frear o avanço da doença, e não a reverter aquilo que ela já causou. Por isso, a corrida de Lito é contra o tempo.
Para entender como funcionam esses tratamentos, é preciso entender primeiro como funciona a doença:
A Creutzfeldt-Jakob pertence a um grupo de doenças causadas por príons — formas anormalmente dobradas de uma proteína que existe normalmente no organismo, principalmente no sistema nervoso. O problema começa quando ela passa a se comportar de forma anômala.
Essa proteína mal dobrada não apenas se acumula: ela funciona como uma espécie de molde, induzindo outras proteínas normais a se dobrarem da mesma forma errada. Isso cria uma reação em cadeia que leva ao acúmulo dessas proteínas e, progressivamente, à lesão dos neurônios e do tecido cerebral.
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Os tratamentos experimentais agem sobre esse processo usando uma estratégia central: reduzir a quantidade da proteína normal que serve de matéria-prima para essa desordem que intoxica o cérebro.
Os tratamentos experimentais são:
O ION717, da farmacêutica americana Ionis Pharmaceuticals.
E o PRiSM, conduzido pelo Broad Institute, ligado a Harvard e ao MIT.
Abaixo, o g1 te explica o que são esses tratamentos, como eles funcionam e o que ainda é preciso saber.
O que são os tratamentos experimentais?
🔴 Antes, vale dizer que as duas propostas de tratamento são, na verdade, pesquisas em andamento e em fases iniciais.
As pesquisas miram o mesmo alvo: um gene chamado PRNP, responsável por produzir a proteína príon normal (PrP). Reduzindo a quantidade dessa proteína disponível, é possível reduzir também a matéria-prima que alimenta o acúmulo de proteínas malformadas.
“É um mecanismo feito para funcionar como fechar a torneira do problema. A gente vai impedindo que o ‘tanque’ do cérebro vá recebendo mais dessa proteína e, assim, alimentando esse mecanismo. O resultado esperado disso é frear o avanço da doença”, explica Bruno Solano, médico pesquisador do IDOR Ciência Pioneira e Fiocruz, especialista em terapias avançadas.
O que prevê o ION717
Liderado pela farmacêutica americana Ionis Pharmaceuticals, o ION717 usa uma tecnologia chamada ASO. É uma molécula sintética que funciona como uma “capa”: ele se liga ao RNA de PRNP e promove sua redução, diminuindo a produção de PrP. Sem conseguir agir, esse RNA não vira proteína — ou seja, a produção da proteína príon vai sendo reduzida na origem.
Com isso, o tratamento é como fechar a torneira que alimenta o acúmulo tóxico no cérebro.
O medicamento é aplicado por punção lombar, direto no líquido que banha o cérebro e a medula espinhal, para tentar alcançar o maior número possível de células cerebrais. A tecnologia em si não é nova — já é usada em testes para outras doenças neurodegenerativas. A novidade é aplicá-la a uma doença que, até então, não tinha nenhum tratamento em teste.
➡️ É a pesquisa mais adiantada das duas: o primeiro paciente recebeu o medicamento em janeiro de 2024 e o estudo já foi ampliado. Em março deste ano, a Ionis ampliou o estudo com um novo grupo de cerca de 20 pacientes, depois que dados preliminares mostraram sinais de segurança e indícios de que o remédio está interagindo com o alvo certo.
Isso é um sinal de que a pesquisa está caminhando dentro do esperado, mas ainda não é possível dizer que é segura ou que teve algum achado de eficácia.
O que prevê o PRiSM
O segundo tratamento experimental citado é encabeçado pelo Broad Institute, ligado a Harvard e ao MIT, o PRiSM. Ele mira o mesmo alvo da pesquisa anterior e também tenta fechar a ‘torneira’ da proteína com problema, mas por outro caminho: usa uma tecnologia chamada siRNA, ou RNA de interferência.
🔴 Em vez de cobrir o RNA do gene PRNP, como faz o ASO, o siRNA funciona como um “GPS”: ele se liga a proteínas que passam a caçar e destruir esse RNA dentro da célula, chegando ao mesmo resultado, só que por outra via.
No entanto, essa é uma pesquisa bem mais inicial. Em abril deste ano os pesquisadores abriram a primeira etapa do teste clínico em humanos, a fase 1, para 15 voluntários. A ideia nesta etapa é entender a segurança da substância em humanos.
No registro do teste clínico consta que ainda estão abertas as inscrições. Ou seja, ainda é possível receber pacientes, o que pode sinalizar que ninguém tenha recebido o medicamento.
O g1 entrou em contato com os pesquisadores responsáveis para saber mais detalhes do estudo e as possibilidades de Lito, mas não teve retorno até a publicação.
🔴 Os dois estudos estão em fases bem iniciais e ainda não ficaram provadas a segurança e a eficácia.
O doutor em Engenharia Biomédica e especialista em pesquisa clínica, Daniel Dahis, comenta que talvez um dos maiores desafios seja agir contra o cérebro. Diferente de outros órgãos, o cérebro é protegido por uma espécie de filtro natural. Para além de penetrar essa barreira, a substância ainda vai precisar cobrir uma grande área, já que a doença não é localizada.
“O cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, que dificulta muito a chegada de medicamentos. E a doença priônica não é uma doença localizada em uma região apenas. Ela se espalha por diferentes áreas do órgão. Então, mesmo administrando a substância diretamente no líquido que banha o cérebro e a medula, é preciso que ela se distribua bem e fique ativa por tempo suficiente para alcançar o maior número de células. Isso não é simples”, explica Dahis.
Para Bruno Solano, médico pesquisador do IDOR Ciência Pioneira e Fiocruz, especialista em terapias avançadas, os dois estudos ainda tentam entender qual a dose segura para fechar a torneira sem silenciar a proteína a um nível que isso prejudique o paciente.
“Provavelmente, se você acabar silenciando muito esse gene, você vai ter algum problema, porque a proteína tem uma função importante no organismo. Então, ali você está querendo reduzir a expressão, mas isso vai ter que ser visto através dos testes que ainda estão acontecendo”, explica.
E por que entrar em algo experimental?
O caso de Lito é uma corrida contra o tempo. Quando os primeiros sintomas da Creutzfeldt-Jakob aparecem, a doença já avançou silenciosamente pelo cérebro. O processo de destruição dos neurônios começa muito antes de o paciente perceber qualquer alteração.
Isso significa que, no momento do diagnóstico, o dano já está feito — e a doença segue avançando rápido, sem que exista, hoje, qualquer forma de parar esse processo. No caso de Lito, segundo a esposa, Mila Seidl, ele já teve perda de visão, de mobilidade, depende de cuidador e precisa de home care – cuidados hospitalares em casa.
A proposta das duas terapias é tentar frear o processo a partir do estágio em que a doença estiver no momento da aplicação. Mas não há nada no estudo que demonstre que seja possível regredir a doença.
“A questão que temos aqui é que é uma doença letal e muito rápida. Quando a gente tem uma doença que tem uma evolução clínica inexorável, que hoje não tem cura, na medicina vai ser sempre a análise de risco-benefício”, explica o especialista Bruno Solano.
Daniel Dahis, que é especialista em estudos clínicos, com passagem por Harvard, onde um dos estudos está sendo feito, cita que a análise é no risco que a doença oferece ao paciente, diante da possibilidade.
“Há riscos, mas estamos falando de uma pessoa com uma doença grave, rapidamente progressiva e que hoje não tem tratamento capaz de interromper sua evolução. Nesse contexto, a análise de risco-benefício é diferente. A gente pode aceitar um grau maior de incerteza e de risco para testar uma terapia experimental porque também precisa considerar o que provavelmente acontece sem nenhum tratamento. Mas isso não significa aceitar qualquer risco: ele ainda precisa ser justificável e monitorado dentro de critérios éticos e de segurança”, explica.
Como entrar para um teste clínico?
Segundo o registro oficial dos dois estudos no ClinicalTrials.gov, o ION717 — hoje a pesquisa mais avançada — está marcado como “ativo, não recrutando”: ou seja, não está mais aberto para novos voluntários no momento. Já o PRiSM segue com inscrições abertas.
Cada centro de pesquisa segue critérios de inclusão e exclusão, definidos e aprovados previamente pelas agências regulatórias e envolvidos nos estudos. É preciso se encaixar no cenário dos estudos e ter a aprovação das autoridades e pesquisadores.
É isso que a campanha nas redes está tentando agora. A ideia é fazer o caso de Lito conhecido para que os pesquisadores tenham acesso ao caso clínico dele e avaliem. Como a doença é rara, há mais chances de que pacientes assim sejam recrutados.
No caso da Ionis Pharmaceuticals, responsável pelo ION717, eles constam em sua página com o recurso de uso compassivo de drogas em testes, apesar de não haver menção específica para o caso da pesquisa para a doença priônica. Isso acontece quando um paciente tem acesso a um medicamento que ainda está em testes, mas ele não faz parte deles.
Isso depende de uma série de regras, como avaliação da saúde do paciente, avaliação médica da farmacêutica, autorização das agências sanitárias.

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