Entenda o que Trump e Xi negociam e os impactos para o Brasil | G1

Entenda o que Trump e Xi negociam e os impactos para o Brasil | G1

A relação comercial entre Estados Unidos e China passou por uma forte escalada nos últimos anos, com os dois países aumentando tarifas e adotando medidas de retaliação.

Agora, Washington e Pequim ainda precisam avançar em temas como o fornecimento de terras raras, as compras chinesas de produtos agrícolas americanos, a redução de tarifas sobre determinados produtos e as restrições ao comércio de tecnologia.

Para o Brasil, dois setores concentram parte importante dos possíveis efeitos: o agronegócio, principalmente a soja, e a mineração, diante da busca internacional por fornecedores de terras raras fora da China.

Trump e Xi nos Estados Unidos — Foto: REUTERS

Tarifas: uma trégua para ganhar tempo

A guerra comercial entre Estados Unidos e China levou as tarifas dos dois lados para a casa dos três dígitos, antes das reduções negociadas posteriormente.

➡️ Um dos pontos em negociação é a retirada mútua de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em produtos considerados não sensíveis. A lista ainda não foi fechada, mas os dois lados discutem categorias como produtos agrícolas e energia dos EUA, além de bens de consumo e dispositivos médicos chineses.

🚢 A negociação também envolve as taxas portuárias impostas pelos dois países a navios ligados ao outro.

Os EUA criaram cobranças para embarcações chinesas ou construídas na China que atracam em portos americanos, como parte de uma política para pressionar o setor naval chinês.

Pequim respondeu com taxas sobre navios ligados aos EUA. As medidas foram suspensas por um ano no acordo comercial de 2025 e estão entre os pontos que precisam ser resolvidos nas novas negociações.

💰 Para outros países, inclusive o Brasil, mudanças nas rotas de comércio entre as duas maiores economias podem alterar a concorrência por mercados e fornecedores. Isso é especialmente relevante para produtos agrícolas e minerais.

Terras raras: o trunfo da China

As terras raras são um grupo de minerais usados em produtos como motores elétricos, eletrônicos, equipamentos de defesa, turbinas e componentes de alta tecnologia.

A China domina boa parte dessa cadeia e tem usado controles de exportação como instrumento de pressão nas negociações com os Estados Unidos. O país responde por cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, 85% do refino e 90% da produção de ligas e ímãs.

O problema para os americanos não está apenas em encontrar minério. A concentração chinesa também ocorre nas etapas de processamento e fabricação de produtos derivados, o que torna mais difícil substituir rapidamente os fornecedores.

Por isso, Washington busca garantir um fluxo mais previsível de minerais críticos enquanto tenta desenvolver alternativas à cadeia chinesa.

É nesse ponto que o Brasil entra na equação.

O país possui grandes recursos de terras raras, mas ainda tem uma participação pequena na produção e, principalmente, no processamento desses minerais. A tentativa de Estados Unidos e outros países de diversificar fornecedores pode aumentar o interesse por projetos brasileiros e abrir espaço para investimentos no setor.

Nesse cenário, o Brasil também vem ampliando as conversas com outros parceiros para desenvolver o setor de terras raras, segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel.

“O Brasil tem buscado ao longo do ano diversificar parcerias no setor de terras raras, sobretudo com a União Europeia, Austrália e Canadá, justamente para diminuir a dependência e o risco dela com os EUA e a China.”

Agro: a soja está no centro da disputa

A agricultura é outro ponto em que a negociação interessa diretamente ao Brasil.

A China é o maior comprador mundial de soja e compra grandes volumes tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil. Durante a guerra comercial, tarifas chinesas reduziram a competitividade da soja americana e favoreceram os embarques brasileiros.

Agora, Pequim voltou a ampliar as compras dos Estados Unidos.

➡️ Como parte dos acordos anteriores, a China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028. Além disso, assumiu o compromisso de comprar pelo menos US$ 17 bilhões por ano em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos em 2026, 2027 e 2028.

As compras de soja americana já começaram a aumentar. Até 10 de setembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) havia confirmado a venda de quase 10 milhões de toneladas da safra atual para a China.

O movimento não significa que a China deixará de comprar soja brasileira. O mercado chinês é grande o suficiente para absorver volumes dos dois países, e fatores como preço, frete, disponibilidade e período de colheita influenciam a escolha do fornecedor.

Mas uma presença maior da soja americana aumenta a concorrência pelo mercado chinês e pode influenciar a formação dos preços internacionais, inclusive das cotações negociadas em Chicago.

Para o produtor brasileiro, portanto, uma eventual ampliação dos compromissos entre Washington e Pequim pode mudar as condições de disputa por um dos principais mercados do agronegócio nacional.

IA e chips: a disputa pela tecnologia

A tecnologia também está no centro da relação econômica entre os dois países.

Os Estados Unidos tentam limitar o acesso chinês a chips avançados e a tecnologias consideradas estratégicas para o desenvolvimento de inteligência artificial. Pequim, por sua vez, busca reduzir essas restrições e ampliar sua capacidade de desenvolver tecnologia própria.

Ao mesmo tempo, as restrições americanas sobre tecnologias avançadas continuam sendo um dos principais pontos de atrito.

A disputa interessa ao restante do mundo porque chips, equipamentos de computação e sistemas de inteligência artificial estão espalhados por cadeias globais de produção. Mudanças nas regras de exportação podem afetar fabricantes, investimentos e fornecedores de tecnologia em outros países.

Boeing, serviços e outros negócios

A agenda econômica também inclui acordos empresariais.

A China se comprometeu a avançar na compra de 200 aeronaves comerciais da Boeing produzidas nos Estados Unidos. Parte desse compromisso começou a avançar, mas a execução do acordo ainda é acompanhada pelos dois governos.

Também estão em discussão serviços financeiros, investimentos e mecanismos para facilitar a relação comercial entre empresas dos dois países.

São temas que mostram que a negociação vai além das tarifas. O objetivo é estabelecer regras para diferentes áreas da relação econômica enquanto os dois países tentam evitar uma nova escalada comercial.

Por que o encontro acontece agora?

A reunião ocorre durante a visita de Estado de Xi aos Estados Unidos, sua primeira ao país desde 2015. O líder chinês também está nos EUA no contexto da agenda da Assembleia Geral da ONU.

Para Roberto Uebel, o momento da visita está mais relacionado à presença de Xi nos Estados Unidos por causa da agenda internacional do que a um cálculo específico ligado às eleições americanas, previstas para daqui a cerca de um mês e meio.

Na avaliação do professor, o encontro também faz parte de uma tentativa de Trump de retomar uma estratégia de “minilateralismo”, baseada na construção de acordos e arranjos bilaterais entre países, em contraste com negociações mais amplas em organismos multilaterais (Voltar para cima).

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