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Eleição e bolso: o conceito de ‘affordability’ que explica por que bons números da economia não garantem votos; ouça ‘O Assunto’

por Gilberto Cruz
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O Brasil vive um paradoxo econômico: indicadores como crescimento do PIB, inflação controlada e menor desemprego em oito anos não têm se traduzido em sensação de melhora de vida para a população. Segundo o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, em entrevista ao episódio desta quinta-feira (9) do podcast “O Assunto”, a explicação passa por um conceito que ganhou força no debate político internacional: o “affordability”.
O termo, em inglês, se refere à capacidade real de uma pessoa arcar com o custo de vida. Na prática, ajuda a entender por que, mesmo com aumento de renda, muitos brasileiros sentem que o dinheiro não é suficiente.
“O que as pessoas dizem é: ‘a minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais'”, afirma Nunes, com base em pesquisas qualitativas conduzidas em “salas de espelho” — método que simula conversas do cotidiano para captar percepções e sentimentos dos eleitores.
Ao aprofundar as entrevistas, os pesquisadores identificaram três fatores principais que explicam a desconexão entre os números da economia e a percepção da população.
O primeiro é o endividamento. Segundo os relatos, despesas com cheque especial, cartão de crédito e empréstimos consignados têm pressionado o orçamento das famílias. “As pessoas estão tendo problemas gravíssimos com cheque especial, cartão de crédito, consignados”, diz Nunes.
Endividamento no Brasil .
Marcelo Casal Jr./Agência Brasil
O segundo fator é a frustração com o consumo. Mesmo com melhora na renda, muitos brasileiros ainda não conseguem acessar bens e experiências associados a bem-estar. A promessa simbólica de “picanha e cerveja” não se concretizou para parte da população. “O eleitor não encontra bem-estar para vivenciar isso”, resume o pesquisador.
O terceiro ponto é o impacto das apostas online, as chamadas bets. Segundo os relatos, o dinheiro gasto em jogos tem corroído silenciosamente a renda familiar — muitas vezes sem que a própria família perceba.
“Os homens estão jogando escondido, perdem dinheiro e não assumem. Esse dinheiro da família está sendo consumido quase sem perceber”, afirma Nunes.
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A combinação de dívida, consumo frustrado e gastos com apostas ajuda a explicar por que a conta não fecha no fim do mês — mesmo com indicadores positivos.
O cenário tem impacto direto no comportamento eleitoral, especialmente entre os chamados eleitores independentes. Esse grupo, que representa cerca de 30% do eleitorado e não tem posição política definida, é justamente o foco das pesquisas qualitativas da Quaest — e o que, segundo Nunes, vai definir o resultado de 2026.
Para esses eleitores, a percepção do custo de vida pesa mais do que os dados oficiais. Se o orçamento não fecha, os avanços macroeconômicos não se convertem em apoio político.
“Por que a economia do número não combina com a percepção? Porque, na prática, a coisa não está fechando a conta”, conclui Nunes.
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O podcast O Assunto é produzido por: Luiz Felipe Silva, Sarah Resende, Carlos Catelan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stéphanie Nascimento. Colaborou neste episódio Catarina Kobayashi. Apresentação: Natuza Nery.
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O Assunto é o podcast diário produzido pelo g1, disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Desde a estreia, em agosto de 2019, o podcast O Assunto soma mais de 168 milhões de downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o podcast diário do g1 soma mais de 14,2 milhões de visualizações.
Urna eletrônica
Reprodução/TRE-RN

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