O próximo chefe do Executivo encontrará, porém, um cenário econômico adverso, marcado pela desaceleração da economia em meio a juros elevados, segundo especialistas.
A baixa produtividade da economia, a instabilidade internacional, o alto endividamento das famílias e as projeções de inflação acima da meta também deve continuar sendo um obstáculo ao crescimento do país.
O g1 conversou com especialistas para entender o que o próximo presidente pode fazer para melhorar o ambiente econômico do país.
Para a economista Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, a evolução da economia passa por uma melhora no cenário político.
A economista afirma que será necessário uma “pacificação do país” que permita a criação de uma base aliada no Congresso — o que aumentaria a capacidade de implementação da agenda econômica do futuro ocupante do Palácio do Planalto.
“Acho que a primeira coisa, antes de falar diretamente da economia, é o pano de fundo que precisa ser construído na direção de pacificar o país, na direção de criar uma base aliada com participação no governo e, obviamente, como uma forma de também trazer confiança dos agentes econômicos. Esse passo é muito importante”, disse.
Três setores da economia — Foto: Divulgação/SEBRAE, Marcos Oliveira/Agência Senado e Governo do Ceará
Diminuição dos juros
A taxa básica da economia, que chegou a 15% ao ano, está atualmente em 13,75% ao ano. Ainda assim, está entre as mais altas do mundo, em termos reais. O objetivo do Banco Central ao manter a taxa tão alta é conter as pressões inflacionárias e trazer a inflação para a meta fixada de 3%.
Para possibilitar juros menores, os analistas defendem o reequilíbrio das contas públicas, ou seja, não só a retomada de saldos positivos — algo que não acontece de forma sustentada desde 2014 — mas a implementação de superávits crescentes (para conter a alta na dívida pública).
Para Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, o desafio central para enfrentar a desaceleração da economia é a recuperação de superávits primários, ou seja, saldos positivos nas contas do governo.
“Não poderá ser do tipo ‘choque’. Será preciso um programa de recuperação para um período maior, mas com resultados colhidos já desde o início. Isto é, um programa de ajuste proposto pelo presidente e aprovado pelo Congresso para começar a vigorar o quanto antes”, disse Felipe Salto.
Ele defendeu discutir vinculações, indexações, subsídios tributários e financeiros, supersalários, emendas parlamentares, previdência dos militares e outras rubricas. Salto avalia, porém, que o alto nível de endividamento da população não é apenas culpa da taxa básica da economia.
O economista citou os altos níveis de “spreads bancários”, ou seja, de taxas finais cobradas pelos bancos bem acima da taxa Selic, e é preciso reduzir esses valores.
“Não é possível que qualquer plataforma, hoje, consiga sair ofertando crédito a torto e a direito. Isso tem de mudar”, opinou Salto.
Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), analisou que a atual regra para as contas públicas (o arcabouço fiscal) ainda não conseguiu dissipar as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas.
Para ele, a ausência de uma sinalização clara sobre como o país estabilizará sua dívida aumenta a percepção de risco dos investidores e contribui para manter os juros em níveis elevados.
Segundo Ataliba, do FGV-Ibre, uma regra fiscal considerada crível abre espaço para reduzir os juros de forma sustentável, aliviar o endividamento das famílias e criar condições para elevar a produtividade do país. “Hoje não existe uma previsibilidade crível de que teremos uma regra capaz de estabilizar a dívida. Isso gera um prêmio de risco muito grande na economia”, afirmou.
Para baixar os juros, Zeina Latif defendeu medidas que sinalizem o compromisso com as contas públicas, mesmo que o ajuste não garanta a estabilização da dívida brasileira nos próximos anos. Ela defendeu reformas, muitas delas constitucionais, para reduzir os gastos obrigatórios.
“Mas mostrar esse compromisso já ajudaria a desinflamar, vamos dizer assim, a economia, ou seja, reduzir expectativa de inflação, reduzir volatilidade cambial, reduzir taxa de juros. Então essa questão fiscal é central como um alicerce para a estabilidade macroeconômica”, afirmou.
Desemprego e produtividade
Com a economia brasileira em desaceleração, o economista Flávio Ataliba, do FGV Ibre, avaliou que o mercado de trabalho tende a registrar “efeitos mais significativos” (perda de dinamismo) ao longo de 2027.
Além dos desafios de curto prazo, o economista aponta a baixa produtividade como um problema estrutural da economia brasileira. “A gente só consegue aumentos reais de renda sem recorrer ao endividamento por meio do crescimento da produtividade. Sem isso, fica difícil atender às demandas da população e sustentar o crescimento”, disse Ataliba.
Felipe Salto concorda que o desemprego deve aumentar em algum momento, mas avalia que é possível passar pelo turbilhão, em 2027, reequilibrando as contas públicas, inclusive por meio de medidas que já foram tomadas pelo atual governo, como a limitação da evolução do salário-mínimo ao teto do arcabouço. Mas também avançando na agenda fiscal.
Segundo Zeina Latif, a grande questão do Brasil é aumentar a produtividade da mão de obra e, junto com isso, as remunerações — o que também ajudaria a reduzir o endividamento das famílias.
“Acho que precisamos repensar essas medidas de estímulo ao consumo. Seria mais saudável o consumo acelerar em função das reformas, em função do ambiente macroeconômico mais favorável, em função do ganho de produtividade se traduzindo em salários. Essa é a forma mais saudável, e não estímulos artificiais que, lá na frente, acabam gerando esse estresse financeiro para as famílias”, concluiu.
Política comercial
Na política comercial com outros países, marcada atualmente por tensões por conta da guerra no Oriente Médio, que influencia as compras e vendas de produtos brasileiros, assim como pelo tarifaço imposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, os economistas avaliam que ampliar as exportações e abrir mais a economia pode aumentar investimentos, produtividade e crescimento no longo prazo.
“Em um quadro de guerras, conflitos e tarifaços, o desafio é manter essas diretrizes [garantir assento ao Brasil nas mesas de negociação com as principais economias e amplificar nossa histórica posição plural e agregadora]. Além disso, ter claro que só vamos voltar a crescer com uma expansão mais importante das exportações líquidas, resgatando, inclusive, a importância que a indústria já teve no passado, à luz das novas agendas ambientais, de energia e de tecnologia”, disse Salto.
Zeina Latif defendeu a reformulação do Mercosul (bloco econômico formado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) para que se tenha maior flexibilidade de fazer acordos comerciais. Pelas regras atuais, acordos têm que ser feitos em conjunto pelo bloco, e não somente por um país.
“Nas barreiras não tarifárias, realmente fazer um pente-fino. Tem muitas discussões sobre bitributação, são muitas distorções. Você vai tentando proteger um setor ou outro, e ficou um ‘mosaico’ de regras que, muitas vezes, geram mais burocracia, mais incertezas, complexidades, sem ter um todo coerente. Política comercial é algo que a gente está muito atrasado. Felizmente, alguns acordos comerciais caminham, mas nesse mundo com mais riscos seria importante o Brasil acelerar a agenda de diversificação de parceiros comerciais”, concluiu Latif.