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Câncer colorretal deve causar 635 mil mortes e perdas bilionárias no Brasil até 2030

por Redação
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Câncer colorretal deve causar 635 mil mortes e perdas bilionárias no Brasil até 2030
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Recentemente, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), juntamente com colaboradores brasileiros, incluindo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), vem concentrando esforços no sentido de investigar o impacto econômico indireto do câncer, e de ampliar a visibilidade dessa temática.
Vários estudos já foram publicados por este grupo de colaboradores – do qual nós, autores deste artigo, pertencemos. E ao participarmos de uma investigação sobre a perda de produtividade nos BRICS, surgiu a ideia de explorarmos de forma mais detalhada este indicador aqui no Brasil, ao longo do tempo e por regiões. A ideia foi mostrar a relação entre saúde, economia e impacto social, para reforçar a urgência de investimentos em prevenção, rastreamento e tratamento oncológico. Estratégias que, além de salvar vidas, promovem o desenvolvimento das sociedades.
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Primeiro desafio: por onde começar?
Há algum tempo, estudos vem alertando sobre o aumento da incidência do câncer colorretal entre pessoas com menos de 50 anos. Há projeção de aumento do número de casos de 21% no Brasil entre 2030 e 2040. Este impulsionamento deve-se pelo envelhecimento populacional, dietas ricas em alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade.
Além disso, aproximadamente 65% dos casos são diagnosticados em estágio avançado, quando as chances de cura são menores. Isso reforça a necessidade de prevenção por meio do rastreamento.
Outro aspecto importante é a dificuldade de acesso ao tratamento. O atraso no início do tratamento é mais frequente em pessoas pretas e pardas e com baixo nível de escolaridade. E mais: são pessoas encaminhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que precisam receber o tratamento fora do seu município de residência.
Também chamado de câncer de intestino, é o segundo tipo que mais acomete mulheres (após câncer de mama) e homens (após câncer de próstata) no país. Esse câncer é diagnosticado quando o paciente apresenta tumores no intestino grosso, chamado cólon, e no reto, que corresponde ao final do intestino.
Chama a atenção também o aumento da mortalidade, que foi de 120% nos últimos 20 anos. A mortalidade prematura, entre 30 e 69 anos, também tem aumentado de forma considerável.
Assim, escolhemos priorizar os dados do câncer colorretal e o potencial de redução de mortalidade para esta patologia. Seu controle envolve estratégias de prevenção primária, que visa a redução dos fatores de risco. Na prevenção secundária, o rastreamento deve ser feito para detecção precoce e remoção de lesões precursoras. E na prevenção terciária, é essencial o acesso ao tratamento em tempo oportuno.
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O impacto econômico indireto do câncer colorretal no Brasil
Um estudo publicado recentemente por nós e colaboradores internacionais no periódico científico The Lancet estimou o impacto econômico indireto da mortalidade por câncer colorretal no Brasil entre 2001 e 2030, com detalhamento por região.
Esse impacto foi medido pela metodologia do capital humano estimado em anos potenciais de vida produtiva perdidos e perdas de produtividade – ou seja, quanto essas pessoas deixaram de produzir porque foram à óbito pela doença enquanto ainda trabalhavam.
No Brasil, é comum que pessoas continuem trabalhando após a aposentadoria, por isso, incluímos óbitos ocorrendo a partir dos 15 anos de idade até o final da vida.
Foram estimadas 635.253 mortes por câncer colorretal entre 2001 e 2030, correspondendo a 12,6 milhões de anos potenciais de vida produtiva perdidos, e perdas de produtividade da ordem de US$ 22,6 bilhões.
Os resultados mostram aumentos expressivos das mortes e das perdas econômicas, com importantes desigualdades regionais.
Um achado de destaque foi que, apesar de as regiões Norte e Nordeste apresentarem os menores impactos econômicos totais, essas regiões concentram os maiores crescimentos relativos de mortalidade, anos de vida produtiva perdidos e perdas de produtividade, indicando as desigualdades regionais.
Além disso, se considerarmos os óbitos individuais nessas regiões, temos maiores perdas de produtividade e maior número de anos de vida produtiva perdidos.
Já as regiões Sul e Sudeste, mais avançadas na transição epidemiológica e demográfica, apresentaram maior mortalidade e perdas absolutas.
Como esse tipo de pesquisa contribui para o avanço da pesquisa em câncer?
Esse estudo contribui para avançar a pesquisa em câncer ao demonstrar que a mortalidade por câncer não gera apenas impacto na saúde, mas também importantes consequências econômicas e sociais.
As mortes prematuras por câncer reduzem o estoque de capital humano sob a perspectiva da sociedade.
Quando as pessoas morrem em decorrência do câncer e antes de atingir sua expectativa de vida, ocorre a perda de suas contribuições para suas famílias, comunidades e para a sociedade como um todo.
Os resultados fornecem evidências sobre os potenciais ganhos econômicos de investimentos sustentados em prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e acesso oportuno ao tratamento.
Na prática, essas informações podem orientar políticas públicas e o planejamento regionalizado dos serviços de saúde, contribuindo para reduzir desigualdades, salvar vidas e mitigar o impacto social e econômico das mortes prematuras por câncer.
Nossos resultados também fornecem elementos adicionais ao subsidiar avaliações econômicas de incorporação de novas estratégias tanto de prevenção (como rastreamento) e tratamentos.
Interesse global
Nos anos mais recentes, o interesse pela investigação da carga global do câncer e pelos danos que vão além de medidas clássicas como incidência, mortalidade e sobrevivência ampliaram-se.
O estudo de outros indicadores como estimativas de mortes evitáveis relacionadas a fatores de risco e impacto econômico do câncer têm sido crescente devido a sua capacidade de fornecer informações adicionais para subsidiar políticas públicas de controle do câncer.
A relevância aumenta à medida que o câncer é a segunda doença que mais mata no mundo, atrás das doenças cardiovasculares.
Em algumas cidades do Brasil, já é a principal causa de morte. E as estimativas de incidência apontam para 518 mil casos anuais (excluídos os tumores de pele não melanoma) entre 2026 e 2028 no Brasil.
Essa pesquisa foi financiada pela programa MSD Independent Oncology Policy Grant Program.
Não houve envolvimento do patrocinador nas decisões relacionadas ao estudo, incluindo a metodologia, a coleta, a análise e a interpretação dos dados, assim como na escrita deste texto e na decisão de submeter este artigo para publicação.
Marianna de Camargo Cancela recebeu financiamento do programa MSD Independent Oncology Policy Grant Program
Arn Migowski Rocha dos Santos é membro convidado do Comitê de Prevenção e Rastreamento de Câncer da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Arn Migowski Rocha dos Santos é pesquisador princiapal de um projeto de iniciativa do pesquisador em rastreamento de câncer de pulmão patrocinado pela AstraZeneca, no qual não há interferência do patrocinador no desenho, condução ou publicações do estudo. É também coinvestigador de projeto de pesquisa sobre câncer colorretal financiado pelo CNPq e coinvestigador de projeto de pesquisa de iniciativa de investigador sobre impacto econômico do câncer financiado pela MSD. Não recebendo remuneração por nenhum desses projetos de pesquisa supracitados.
Dyego Leandro Bezerra de Souza recebe financiamento do CNPq – Bolsista de Produtividade em Pesquisa – 315962/2023-2.
Jonas Eduardo Monteiro dos Santos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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