Brasil Soberano: veja as medidas do governo contra as tarifas dos EUA | G1

Brasil Soberano: veja as medidas do governo contra as tarifas dos EUA | G1

Nesta quarta-feira (22), foi anunciada a liberação de mais R$ 18,5 bilhões em rédito para empresas afetadas. Dentro do Plano Brasil Soberano, este já é o terceiro anúncio e recebe o nome de Brasil Soberano 3.

Mesmo com uma ampla lista de exceções, o governo calcula que cerca de 2,4 mil empresas brasileiras foram afetadas pelo tarifaço. Elas representam aproximadamente 18% das exportações do Brasil para os EUA e movimentaram, juntas, US$ 7,4 bilhões (R$ 37,5 bilhões) em vendas ao mercado americano em 2024.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), 74% delas já exportam para outros países, o que pode facilitar o redirecionamento das vendas para novos mercados.

Entre os setores mais afetados estão madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar.

Brasil Soberano concentra principal pacote de apoio

A principal iniciativa é o Plano Brasil Soberano, programa criado pelo governo para apoiar empresas afetadas pelas tarifas americanas. A medida prevê linhas de financiamento, ampliação das garantias para exportadores e ações de promoção comercial para ajudar empresas brasileiras a encontrar novos mercados.

O auxílio foi estruturado em três etapas. A primeira foi lançada em agosto de 2025, quando o governo criou o programa e autorizou o uso de até R$ 30 bilhões do Fundo de Garantia à Exportação (FGE) para apoiar empresas afetadas pelo primeiro tarifaço dos Estados Unidos.

A segunda etapa começou em março deste ano, com a abertura de uma nova rodada de financiamentos. O programa tinha um limite de R$ 21 bilhões em crédito. Até o encerramento do prazo, nesta quarta-feira (22), empresas protocolaram R$ 19,5 bilhões em 667 pedidos. Como R$ 1,5 bilhão não foi utilizado, o valor retorna ao Tesouro Nacional.

Coincidentemente, no mesmo dia em que se encerrou a segunda etapa, o governo anunciou a terceira. O Brasil Soberano 3 conta com um teto de R$ 18,5 bilhões, destinados a empresas afetadas pelas tarifas adicionais dos Estados Unidos e pelos impactos da guerra no Oriente Médio

Desse total, R$ 13,5 bilhões virão de recursos não utilizados do Brasil Soberano 1 e de renegociações de dívidas rurais, e R$ 5 bilhões serão aportados pelo BNDES.

Os três planos do governo

Etapa Data Valor anunciado Objetivo
Brasil Soberano 1 Agosto de 2025 Até R$ 30 bilhões Criar uma rede de apoio para empresas afetadas pelo primeiro tarifaço dos EUA, com linhas de crédito, garantias à exportação, benefícios tributários e ações para abertura de novos mercados.
Brasil Soberano 2 Março de 2026 R$ 21 bilhões Ampliar o crédito para empresas impactadas pelo tarifaço e por instabilidades internacionais, como a guerra no Oriente Médio, financiando capital de giro, investimentos, inovação e adaptação da produção.
Brasil Soberano 3 22 de julho de 2026 R$ 18,5 bilhões Reforçar o programa diante da entrada em vigor da nova tarifa de 25% dos EUA, oferecendo novos financiamentos para empresas exportadoras, seus fornecedores e setores estratégicos, além de empresas afetadas pela guerra no Oriente Médio.

Os recursos podem ser usados para:

  • capital de giro, ajudando empresas a manter suas operações enquanto reorganizam vendas;
  • compra de máquinas e investimentos produtivos;
  • adaptação de produtos e processos para novos mercados;
  • inovação tecnológica;
  • fortalecimento de fornecedores ligados às cadeias exportadoras.

Os beneficiários também precisam assumir compromissos relacionados à manutenção ou ampliação de empregos.

A demanda pelo montante já supera o volume inicialmente disponibilizado – os pedidos de financiamento já somam R$ 18,2 bilhões. O BNDES aprovou até agora R$ 8,3 bilhões em operações.

As inscrições para o Brasil Soberano 3 ainda não estão abertas.

Conheça outras medidas que podem ajudar sua empresa

Lula assina Brasil Soberano III — Foto: Reprodução

1. Seguro de Crédito à Exportação

Outra frente de apoio é o fortalecimento do Seguro de Crédito à Exportação (SCE). Criado em 1999, diferentemente de uma linha de financiamento, o mecanismo funciona como uma proteção contra riscos de uma operação internacional.

Ele foi ampliado em março deste ano, com a MP nº 1.345/2026, que passou a permitir o uso do SCE para novas modalidades de crédito, especialmente voltadas às micro, pequenas e médias empresas, e integrou o instrumento ao Plano Brasil Soberano.

Depois, no mês passado, o Gecex regulamentou essas mudanças por meio da Resolução nº 916.

Na prática, o seguro ajuda a cobrir possíveis perdas caso um comprador estrangeiro deixe de pagar ou ocorram problemas que impeçam a conclusão do negócio, como restrições políticas ou eventos extraordinários.

Com isso, bancos e instituições financeiras ficam mais seguros para conceder crédito aos exportadores.

  • ⏳Quando foi aplicado: em 1999 e reformulado em 2026;
  • 📄​Para que serve: é um seguro que protege operações de crédito ligadas às exportações;
  • 💵​Quanto dinheiro envolve: o SCE não tem um orçamento próprio anunciado, ele é lastreado pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE).

Lula discursa durante assinatura do Brasil Soberano III — Foto: Reprodução

2. Programa de Financiamento às Exportações

O Programa de Financiamento às Exportações (Proex) surgiu em 1991 e oferece financiamento para exportações brasileiras em condições semelhantes às praticadas internacionalmente, ajudando empresas a competir com fornecedores de outros países. Atualmente, é regulamentado pela Lei nº 10.184/2001 e operado pelo Banco do Brasil com recursos do Tesouro Nacional.

Enquanto o SCE funciona como uma garantia contra riscos, o Proex atua diretamente no financiamento da venda externa.

Na prática, ele ajuda empresas brasileiras a venderem para o exterior oferecendo crédito mais barato ou reduzindo o custo do financiamento da operação e conta com duas modalidades.

O Proex Financiamento, em que o Tesouro Nacional empresta diretamente recursos ao exportador brasileiro ou ao comprador estrangeiro; e o Proex Equalização, em que o financiamento é concedido por um banco e o governo paga parte dos juros para que o custo fique semelhante ao praticado por concorrentes internacionais.

  • Quando foi aplicado: em 1991;
  • 📄​Para que serve: oferece financiamento para exportações brasileiras de bens e serviços em condições competitivas no mercado internacional;
  • 💵​Quanto dinheiro envolve: o Proex não tem um valor único. Todos os anos, ele recebe recursos previstos na Lei Orçamentária. Para este ano, foram destinados R$ 2,2 bilhões para o Proex Financiamento e R$ 1,28 bilhão para o Proex Equalização.

O drawback também não foi criado em resposta ao tarifaço. Trata-se de um regime aduaneiro especial existente há décadas, usado para reduzir o custo de produção de empresas que exportam.

O mecanismo permite suspender ou eliminar determinados impostos sobre matérias-primas e insumos usados na fabricação de produtos exportados.

O que o governo fez após as tarifas dos Estados Unidos foi prorrogar prazos do regime para empresas afetadas por mais um ano, dando mais tempo para que cumpram seus compromissos de exportação.

O recurso foi instituído pelo Decreto-Lei nº 37, de 1966, e atualmente é regulamentado pela legislação aduaneira e por normas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). É administrado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Há três modalidades de drawback, a suspensão (consiste na suspensão de tributos), a isenção (isenta ou reduz os tributos) e a restituição (restitui os tributos pagos na importação de insumo e utilizado no bem exportado).

Donald Trump anuncia tarifas. — Foto: AFP

  • Quando foi aplicado: em 1966;
  • 📄​Para que serve: reduzir o custo de produção de empresas exportadoras ao suspender ou eliminar tributos sobre matérias-primas e insumos utilizados na fabricação de produtos destinados ao mercado externo;
  • 💵​Quanto dinheiro envolve: o drawback não possui um orçamento próprio, o mecanismo funciona por meio da suspensão, isenção ou restituição de tributos, e não pela liberação de recursos financeiros às empresas.

Lei de Reciprocidade dá instrumento para eventual resposta comercial

Além das medidas de apoio às empresas, o governo também passou a contar com a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso.

O mecanismo permite que o Brasil adote medidas equivalentes quando sofrer restrições consideradas injustificadas de outros países.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, o instrumento não representa uma retaliação automática, mas uma ferramenta que poderá ser utilizada caso seja considerada necessária.

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