Tubarão filmado no mar
Documentário Ecoshark/Reprodução/Youtube
A sertralina é o antidepressivo mais prescrito do Brasil. Em 2025, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceram 11% em relação ao ano anterior.
Um levantamento nacional indica que 18,6% mais brasileiros usaram medicamentos para saúde mental entre 2022 e 2024.
O que poucos sabem é que parte dessas pílulas percorre um segundo caminho depois de metabolizada pelo organismo: sai pela urina, entra no esgoto e vai direto para o mar.
E no Rio de Janeiro, além de toda a beleza do mar, também tem tubarões.
O encontro que ninguém esperava
O Projeto EcoShark, coordenado por mim, Mariana Batha Alonso, professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, monitora a saúde de tubarões na costa fluminense desde 2018. Essa investigação contou também com outros cientistas como José Neto e Victor Alves, e é uma iniciativa pioneira sobre contaminantes emergentes em elasmobrânquios.
Biólogos do EcoShark no processo de identificação e estudo de tubarões no litoral Sul Fluminense.
Arquivo pessoal
Ainda a ser publicado, mas já compartilhado no âmbito da UFRJ, o estudo identificou a sertralina — o ingrediente ativo do Zoloft e de dezenas de genéricos — no tecido cerebral de tubarões-martelo (Sphyrna lewini e S. zygaena), classificados como espécies criticamente ameaçadas de extinção (IUCN, Ibama)
Tubarões-martelo foram capturados acidentalmente em redes de pesca no Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana – graças a uma parceria entre pescadores e pesquisadores da UFRJ. Como predadores de topo, eles bioacumulam tudo o que está na cadeia alimentar, na água e no sedimento. E, cada vez mais, o que sobra nessa cadeia são os resíduos da nossa medicina.
A rota do remédio
Como um antidepressivo humano chega ao cérebro de um tubarão? O caminho é menos surpreendente do que parece.
Uma pessoa quando toma sertralina, o organismo metaboliza grande parte do fármaco no fígado. A sertralina pode ser excretada inalterada ou metabolizada e ambos alcançam os sistemas de esgoto.
As estações convencionais de tratamento de esgoto foram projetadas principalmente para remover matéria orgânica, nutrientes e microrganismos. E a remoção de compostos farmacêuticos costuma ser incompleta. Por isso, resíduos de antidepressivos e seus metabólitos são detectados em efluentes tratados e em ambientes aquáticos.
No estado do Rio de Janeiro, apenas cerca de 47% do esgoto gerado era efetivamente tratado, segundo dados recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Parte significativa do esgoto é lançada no oceano pelos emissários submarinos de Ipanema e da Barra da Tijuca. Com tratamento preliminar, esses sistemas não removem fármacos, liberando moléculas no ambiente costeiro, absorvidas por peixes e invertebrados marinhos diretamente da água ou da alimentação.
Em tubarões, diversos contaminantes se acumulam em tecidos específicos, especialmente no fígado. No caso da sertralina, sua afinidade por tecidos ricos em lipídios e pelo sistema nervoso pode ajudar a explicar sua detecção no cérebro dos animais.
Não é um caso isolado
iólogos do EcoShark no processo de identificação e estudo de tubarões no litoral Sul Fluminense.
Arquivo pessoal.
O Rio de Janeiro não está sozinho nesse mapa. Em março de 2026, um estudo publicado na revista Environmental Pollution revelou que 28 de 85 tubarões amostrados próximos à ilha de Eleuthera (Bahamas), apresentaram concentrações detectáveis de cocaína, cafeína e analgésicos no sangue.
Pesquisadores brasileiros testaram amostras e encontraram antibióticos e opioides em tubarões. O achado mudou a percepção: se drogas aparecem em tubarões de uma ilha caribenha com baixa densidade urbana, o que esperar dos que nadam a menos de 1 km das praias do Rio? O estudo também detectou alterações fisiológicas nos animais, sugerindo que essas substâncias podem afetar sua bioquímica.
Por que o cérebro do tubarão é o problema
A sertralina, que age sobre a serotonina no cérebro humano, foi detectada no tecido cerebral de tubarões. Isso remete à exposição e bioacumulação. Como esse transportador de serotonina é muito semelhante entre vertebrados, a droga poderia teoricamente interagir com proteínas de animais. Mas atenção: a detecção, por si só, ainda não permite afirmar que houve alteração comportamental ou fisiológica nos bichos.
A ciência já sabe: em laboratório, zebrafish expostos a 0,1 µg/L de sertralina – concentração achada em águas costeiras – desenvolveram hipolocomoção e retardo no aprendizado, com alterações no sistema serotoninérgico.
O que ainda não se sabe – e é a pergunta que o EcoShark tenta responder – é o que esses compostos fazem com um elasmobrânquio. Tubarões têm neuroquímica distinta dos peixes ósseos, mais parecida com a dos mamíferos. A resposta, por ora, é um ponto de interrogação com uma centena de quilos.
Uma pergunta que não pode ser ignorada
O Brasil registra o maior índice de letalidade de incidentes com tubarões no mundo. Em 2021, a taxa de mortalidade registrada chegou a 30% — comparado a 1% nos Estados Unidos e 14% na Austrália.
Não, não estamos sugerindo que antidepressivos nos oceanos causem ataques. Mas a pergunta que a ciência tem a obrigação de fazer é outra: se essas drogas, em concentrações relevantes, alteram o comportamento de peixes em laboratório, o que realmente acontece com tubarões cronicamente expostos a elas nas zonas costeiras mais poluídas do mundo?
O que está em jogo além do óbvio
A descoberta de sertralina no cérebro de tubarões-martelo do Rio de Janeiro toca em três crises que o Brasil ainda trata como separadas.
A primeira é a crise de saúde mental. O consumo de antidepressivos no Brasil cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos no período de 2023 a 2025. Esse crescimento não é um problema em si. É um avanço no diagnóstico e no acesso ao tratamento. Mas cada comprimido tem um segundo destino que não está sendo monitorado.
A segunda é a crise de saneamento. Enquanto cerca de metade do esgoto fluminense segue sem tratamento capaz de remover compostos farmacêuticos, o oceano continuará funcionando como receptor da nossa farmácia doméstica.
A terceira crise é a da conservação: o tubarão-martelo, espécie criticamente ameaçada, é essencial para o equilíbrio marinho – sua presença regula e estabiliza a cadeia trófica. Alterar a neuroquímica desse animal é um experimento involuntário e sem controle.
O que precisa mudar
Três ações são urgentes e não se excluem. Os protocolos de monitoramento ambiental do Brasil precisam incluir o rastreamento sistemático de fármacos em tubarões, raias e cetáceos. A metodologia já existe – são os projetos EcoShark e EcoDELFIS. O que falta? Financiamento continuado e uma política pública que valorize e reconheça os medicamentos como poluentes emergentes.
As estações de tratamento de esgoto do país precisam ser modernizadas para remover micropoluentes farmacêuticos.
O financiamento à pesquisa de ecotoxicologia marinha precisa ser ampliado. O Brasil tem uma costa de quase 8 mil quilômetros, uma das maiores biodiversidades do planeta e, agora, tubarões com antidepressivos no cérebro.
A sertralina foi criada para aliviar o sofrimento humano. Que ela chegue ao sistema nervoso de um predador a poucos quilômetros de Copacabana é o registro mais preciso de até onde essa geração deixa suas marcas.
As pesquisas foram financiadas pelo PIBIC-UFRJ, Capes e Faperj. A realização do SubProjeto EcoShark dentro do Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira foi uma medida compensatória estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta de responsabilidade da empresa PRIO, conduzido pelo Ministério Público Federal – MPF/RJ.
Leonardo Vazquez recebeu financiamento da FAPERJ/CNPQ
Mariana Batha Alonso recebeu financiamento através do FUNBIO pelo SubProjeto EcoShark dentro do Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira é uma medida compensatória estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta de responsabilidade da empresa PRIO, conduzido pelo Ministério Público Federal – MPF/RJ
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Biólogos encontram antidepressivo no cérebro de tubarões do litoral do Rio de Janeiro
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