Atlas da Violência: Brasil registrou mais de 3,6 mil homicídios de mulheres em 2024; negligência e abuso sexual lideram ocorrências

Atlas da Violência: Brasil registrou mais de 3,6 mil homicídios de mulheres em 2024; negligência e abuso sexual lideram ocorrências


Brasil registra menor número de homicídios da série histórica
O Brasil registrou o assassinato de 3.642 mulheres em 2024, o que corresponde a 3,4 mortes a cada 100 mil pessoas do sexo feminino. Os dados são do Atlas da Violência 2026, publicado nesta terça-feira (25).
O número representa uma queda de 6,7% em relação a 2023, quando foram documentados 3.903 homicídios de mulheres. De acordo com o levantamento, há uma tendência de redução desse tipo de crime desde 2014 — primeiro ano da série histórica. Em dez anos, o estudo registrou uma queda de 27,7% na taxa de mortes violentas de mulheres.
O Atlas da Violência é um relatório anual produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do governo federal, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Brasil registra aumento de violência doméstica não letal
Bruna Bonfim/g1
A socióloga e diretora do FBSP, Samira Bueno, afirma que, apesar da tendência de queda nos assassinatos de mulheres, houve nos últimos anos um aumento no número de mortes registradas como “causa indeterminada”, o que pode gerar subnotificação dos homicídios femininos, já que parte dessas ocorrências pode esconder assassinatos que não foram corretamente identificados pelas autoridades.
“Entre 2023 e 2024, os registros de mortes violentas sem causa determinada cresceram 23,8%. Nessa classificação entram óbitos que necessariamente decorreram de acidente, homicídio ou suicídio, mas cuja causa específica não pôde ser concluída pelo médico legista. Parte desses casos envolve mulheres assassinadas. Ou seja, a queda das mortes violentas de mulheres é um dado importante, mas precisa ser analisada com cautela, porque pode haver essa lacuna nos dados”, afirma.
Apesar do recuo, o volume absoluto de casos segue elevado. Ao longo da década, 46.336 mulheres foram assassinadas no Brasil. O maior índice de mortes violentas dessa parcela da população foi registrado em 2017, quando a taxa de homicídios atingiu 4,7 mortes por 100 mil mulheres.
Norte e Nordeste concentram maiores taxas
Os estados com as maiores taxas de assassinato de mulheres por 100 mil habitantes foram Roraima (12,6), Rondônia (5,7), Ceará (5,7), Bahia (5,4) e Pernambuco (5,4), o que indica que os níveis mais elevados de violência letal contra mulheres se concentraram nas regiões Norte e Nordeste.
Alguns estados apresentaram índices inferiores à média nacional. São Paulo se destacou com a menor taxa do país em 2024, registrando 1,5 homicídio por 100 mil mulheres, além de uma trajetória consistente de queda ao longo da série histórica. Em 2014, o estado registrava 2,7 mortes violentas a cada 100 mil mulheres.
Também ficaram abaixo da média nacional Acre (2,8), Amapá (2,5), Distrito Federal (2,2), Rio de Janeiro (2,9), Rio Grande do Norte (2,8), Santa Catarina (2,2) e Sergipe (2,2).
Segundo o levantamento, esses estados registraram reduções ao longo do período analisado, algumas bastante expressivas, como em Sergipe (-37,1%) e no Amapá (-32,4%), indicando avanços mais consistentes na diminuição da violência letal contra mulheres nesses contextos.
Mortes em casa
Do total de mortes violentas de mulheres registradas no Brasil, 35,2% aconteceram dentro das residências das vítimas. O percentual é o mesmo registrado em 2023.
Os homicídios de mulheres dentro de casa apresentaram um comportamento diferente do restante das mortes violentas ao longo da última década, de acordo com o estudo.
Enquanto os assassinatos ocorridos fora das residências acompanharam a tendência geral de queda da violência letal no país, os casos registrados dentro de casa permaneceram relativamente estáveis.
Para os pesquisadores, isso indica que a redução dos homicídios de mulheres não ocorreu de forma homogênea e que a violência doméstica continua resistente às quedas observadas em outros contextos.
Mulheres negras assassinadas
As mulheres negras são as principais vítimas da violência letal no país, segundo o Atlas. Das 3.642 mulheres assassinadas, 2.457 eram pretas, o equivalente a 67,5% do total registrado.
Entre 2014 e 2024, a taxa de homicídios nesse grupo caiu de 5,6 para 4 mortes por 100 mil mulheres — uma redução de 28,6% no período.
Para a antropóloga Débora Diniz, a violência contra as mulheres no Brasil tem “endereço e perfil social definidos”.
“Ela ocorre majoritariamente dentro de casa, atinge sobretudo mulheres negras e se manifesta de diferentes formas ao longo da vida — da negligência contra meninas e idosas à violência física e sexual contra jovens e adultas”, afirma.
Violência contra a mulher
Em 2024, 293.842 mulheres foram vítimas de violência não letal no Brasil, sendo que a maior parte dos casos (64%) ocorreu em contexto doméstico. Os registros desse tipo de violência cresceram 6,1% em 2024 na comparação com o ano anterior.
Os maiores aumentos ocorreram nos casos de negligência — definidos como omissão, por parte do cuidador, de prover necessidades básicas —, com alta de 13,8%. As vítimas desse tipo de violência estão majoritariamente na faixa etária de 0 a 9 anos (51,9%) e acima dos 70 anos.
Samira Bueno afirma que todos os tipos de violência doméstica cresceram no período analisado. No caso das crianças de 0 a 9 anos, ela pondera que os registros de negligência incluem situações bastante distintas, desde abandono intencional até casos relacionados à vulnerabilidade socioeconômica das famílias, como crianças que acabam ficando sozinhas em casa enquanto os responsáveis trabalham e sofrem acidentes domésticos.
“São contextos distintos, embora classificados da mesma forma. Isso precisa ser analisado levando em conta a realidade de um país em que grande parte das famílias é chefiada por mães solo, até para que as políticas públicas formuladas consigam atender essas situações da melhor maneira possível.”
As notificações de violência sexual também cresceram 10,8%. Entre meninas de 10 a 14 anos, 45,5% de todas as violências reportadas foram casos de violência sexual, o que sugere forte incidência de abusos intrafamiliares e situações de vulnerabilidade associadas à dependência.
Dos 15 aos 69 anos, a violência física aparece como a manifestação mais comum, frequentemente associada a relações íntimas e acompanhada por uma alta proporção de violência múltipla, indicando que diferentes formas de agressão tendem a ocorrer simultaneamente.
Se destaca também o aumento de 27,2% nos registros classificados genericamente como violência doméstica não identificada, sem detalhamento sobre o tipo de agressão. “Esse estudo também é uma maneira de a gente chamar atenção para a qualidade dessas classificações e tentar responder porque houve uma piora nesses dados da saúde nos últimos anos”, diz Samira.
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