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O recurso reacendeu o debate sobre o chamado “corporativês” — linguagem marcada por jargões e expressões, muitas vezes em inglês, usadas no dia a dia do trabalho. Termos como ASAP, brainstorming, mindset, call, feedback e deadline se tornaram comuns em empresas brasileiras.
🤔 Mas por que essas palavras se popularizaram tanto – e até que ponto ajudam ou atrapalham a comunicação no trabalho?
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o uso de expressões em inglês no ambiente corporativo é reflexo da globalização e da influência de multinacionais, especialmente dos Estados Unidos, onde surgem grande parte das metodologias de gestão e inovação.

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Com o inglês consolidado como língua dos negócios, muitos termos acabam sendo incorporados ao ambiente de trabalho sem tradução. Mas esse hábito, apesar de comum, pode prejudicar a compreensão e criar barreiras internas.
Por que o “corporativês” se popularizou?
O uso de jargões corporativos em inglês se consolidou no Brasil com a chegada de multinacionais e com a influência de conteúdos sobre gestão e negócios – como livros, cursos e metodologias – produzidos majoritariamente nesse idioma.
Com o avanço da globalização, essas expressões passaram a fazer parte da rotina das empresas como uma forma rápida de resumir conceitos mais complexos.
O fenômeno também está ligado à cultura organizacional e, em alguns casos, à insegurança profissional — e já impacta diretamente o engajamento, a produtividade e até a saúde mental dos trabalhadores.
Apesar de funcionarem como atalhos na comunicação, esses termos nem sempre são compreendidos por todos. Isso pode gerar ruído e até exclusão dentro das equipes.
“Embora a intenção original seja criar uma linguagem comum que agilize processos, o efeito prático frequentemente resulta em ruído e exclusão”, afirma Eliane Aere, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP).
Segundo a especialista, sem o chamado letramento corporativo, essas expressões deixam de facilitar a comunicação e passam a criar barreiras internas. “Na prática, elas funcionam como ‘atalhos mentais’ para conceitos complexos, mas, sem compreensão adequada, acabam prejudicando a comunicação”, diz.
Tradutor de linguagem do LinkedIn viraliza nas redes, mas exige cuidados — Foto: Arte g1
Ruído, exclusão e impacto na produtividade
Eliane afirma que é comum que profissionais cometam erros ou enfrentem dificuldades por não entenderem expressões usadas no trabalho. Para ela, o problema se agrava quando o funcionário precisa tentar adivinhar o que o líder quis dizer, o que gera perda de tempo e dificulta o trabalho em equipe.
Quando um colaborador precisa gastar energia tentando entender o que o líder quer dizer, perdemos tempo e criamos barreiras que prejudicam o clima da empresa.
— Eliane Aere, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP).
A especialista explica que há uma diferença entre usar termos técnicos quando necessário e exagerar no uso de jargões. Segundo ela, o problema está no uso por modismo.
Palavras como “feedback”, por exemplo, muitas vezes são usadas de forma vaga no dia a dia, como uma simples opinião. No entanto, em métodos de gestão, o termo tem um significado mais estruturado, ligado ao desenvolvimento do profissional.
“Quando o RH não explica bem esses conceitos, cria-se confusão sobre o que é feedback de verdade e sobre o desempenho do colaborador”, afirma.
Segundo ela, o uso do “corporativês” também pode estar ligado à busca por status ou à insegurança no ambiente profissional.
Os efeitos aparecem na produtividade: falhas na comunicação geram retrabalho, desencontro de expectativas e perda de eficiência.
Para a especialista, usar uma linguagem mais simples e clara é essencial para criar ambientes de trabalho mais inclusivos e produtivos.
“É essencial investir em comunicação clara e adaptar a forma de falar ao nível de entendimento de cada pessoa”, explica.
Na prática, isso significa:
- Preferir o português sempre que houver tradução direta e clara;
- Explicar conceitos técnicos quando forem inevitáveis;
- Criar um ambiente em que fazer perguntas não gere constrangimento.
Como simplificar a comunicação no trabalho
O executivo Denis Caldeira, da área de tecnologia e negócios, afirma que, apesar de o inglês ter se tornado a principal língua dos negócios, é recomendável que, sempre que possível, os termos sejam explicados — justamente para não excluir quem não está familiarizado com esse vocabulário.
“O comunicador deve saber com quem está falando e adaptar a linguagem. Não o contrário”, afirma.
O problema é usar palavras difíceis para explicar coisas simples. Por que dizer ‘vou fazer um deep dive no seu report’ se você pode dizer ‘vou analisar seu relatório em detalhes’?
— Denis Caldeira, executivo na área de tecnologia e negócios.
Caldeira alerta ainda que esse tipo de linguagem pode gerar confusão. Expressões como “mindset de ownership”, por exemplo, podem ter significados diferentes para cada pessoa, o que causa frustração quando as expectativas não estão claras.
Para o executivo, simplificar a comunicação é possível – e necessário. “O líder moderno é aquele que consegue explicar ideias complexas de forma simples”, afirma.
Uma das estratégias, diz Caldeira, é o chamado “filtro da vovó”: explicar o trabalho de um jeito que qualquer pessoa consiga entender.
O executivo explica, ainda, que o uso excessivo de jargões também acende um alerta para a saúde mental no trabalho.
“O sentimento de ‘não falar a língua da empresa’ pode gerar ansiedade e síndrome do impostor”, diz.
Apesar disso, o executivo reconhece que o “corporativês” faz parte da cultura de muitas organizações. “A simplicidade é inclusiva e acolhedora, mas, na prática, muitas vezes é mais fácil buscar adaptação do que mudar a cultura da empresa”, conclui.
Principais termos do “corporativês”
A seguir, o g1 lista os principais termos do “corporativês” e explica seus significados com a ajuda de especialistas:
- Alignment (Alinhamento) – É quando todos estão na mesma página sobre objetivos e prioridades.
- ASAP (o mais rápido possível) – Usado para indicar urgência, mas pode ser vago, por isso o ideal é definir um prazo claro.
- Backlog (Lista de pendências) – É uma lista organizada de tudo o que precisa ser feito.
- Benchmark (Referência de mercado) – Comparação com outras empresas para melhorar resultados.
- Brainstorm (Tempestade de ideias) – Momento para sugerir ideias livremente, sem críticas.
- Briefing (Resumo do projeto) – Documento ou conversa inicial com as informações essenciais para executar um trabalho.
- Budget (Orçamento) – Planejamento de quanto dinheiro pode ser gasto.
- Call (Reunião) – Conversa, geralmente online, para tratar de assuntos de trabalho.
- Compliance (Conformidade) – Cumprimento de leis, normas e regras internas da empresa.
- Deadline (Prazo final) – Data limite para entregar algo.
- Deep dive (Análise aprofundada) – Análise detalhada de um tema.
- Deliverable (Entregável) – Resultado final de um trabalho.
- Feedback (Retorno) – Retorno ou orientação para melhorar um trabalho ou desempenho.
- Follow-up (Acompanhamento) – Verificação sobre o andamento de uma tarefa ou demanda.
- Go-live (Entrar no ar) – Momento em que um projeto começa a funcionar.
- Hands-off (Pouca intervenção) – Quando o gestor dá autonomia e interfere pouco.
- Hands-on (Mão na massa) – Quando o profissional participa diretamente da execução.
- Headcount (Número de funcionários) – Quantidade de pessoas em uma equipe.
- High level (Visão geral) – Explicação ampla, sem entrar em detalhes.
- Hiring (Contratação) – Processo de contratar novos funcionários.
- Kick-off (Início do projeto) – Primeira reunião para começar um trabalho.
- KPI (Indicador de desempenho) – Métrica usada para medir resultados.
- Layoff (Demissão em massa) – Corte de vários funcionários ao mesmo tempo.
- Mindset (Mentalidade) – Forma de pensar e agir diante do trabalho.
- Networking (Rede de contatos) – Construção e manutenção de relações profissionais.
- OKR (Metas e resultados) – Sistema para definir objetivos e medir resultados.
- Onboarding (Integração) – Processo de adaptação de novos funcionários.
- One-on-one / 1:1 (Reunião individual) – Reunião entre gestor e colaborador.
- Ownership (Responsabilidade) – Assumir responsabilidade por uma tarefa ou projeto.
- Pipeline (Fluxo de processos) – Conjunto de etapas de um processo, geralmente relacionado a vendas ou projetos.
- Quick win (Ganho rápido) – Resultado positivo obtido em pouco tempo.
- Report (Relatório) – Documento com dados e análises.
- Roadmap (Plano futuro) – Planejamento das próximas etapas de um projeto.
- Sprint (Período curto de trabalho) – Intervalo definido para executar tarefas específicas.
- Soft skills (Habilidades comportamentais) – Competências pessoais, como comunicação e liderança.
- Stakeholder (Parte interessada) – Pessoa ou grupo impactado por um projeto.
- Top-down (De cima para baixo) – Modelo em que decisões partem da liderança.
- Touch base (Alinhar rapidamente) – Contato rápido para atualização de informações.
- Turnover (Rotatividade) – Entrada e saída de funcionários.
- Workflow (Fluxo de trabalho) – Sequência de etapas para realizar uma tarefa.

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