Nova gravidez, nova chance: vacina chega ao SUS após perda do filho
Atrás do balcão de uma farmácia no centro de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Eshiley Campos atende quem entra. Tem 23 anos e conhece os clientes pelo nome. De vez em quando, um deles pergunta pela filha, e costuma haver um silêncio do outro lado —dias atrás, uma cliente quis saber como ela não tinha adoecido de tristeza, como seguia de pé sem tomar nenhum remédio.
Em casa, a segunda filha não deixa ninguém em paz. Helena tem seis meses, chora, apronta, dá trabalho desde que nasceu. A mãe conta isso com um fio de alívio na voz. A primeira, Maitê, não chorava.
Maitê morreu com dois meses e quinze dias, no fim de abril do ano passado. Foi uma bebê que quase não acordava a casa, que mal dava sinal de si. “Ela veio me mostrar o que era o amor”, diz Eshiley. “Foi pouco tempo, mas foi muito intenso.”
Eshiley Campos e a segunda filha, Helena. A primeira, Maitê, morreu por complicações causadas pelo vírus sincicial respiratório (VSR)
Arquivo Pessoal
Uma tosse num domingo
O medo veio antes da menina. Ainda grávida, Eshiley já dizia à mãe que temia o momento em que a filha, recém-nascida, adoecesse —ela, que passava os dias atrás de um balcão de farmácia no centro da cidade, recebendo, um a um, os resfriados e as tosses de quem entrava.
Quando Maitê nasceu, fechou a casa. Não recebia visitas; quando recebia, mantinha todos à distância, e ninguém pegava a menina no colo. Foi assim, no cuidado, que passaram as primeiras semanas de uma bebê que não dava trabalho algum.
O primeiro sinal foi discreto. Num domingo, Maitê começou a tossir —não era gripe, não havia febre, apenas a tosse. Eshiley a levou ao médico, que não encontrou nada. Na segunda-feira, a menina piorou.
Um clínico geral que atendia na pediatria cravou o diagnóstico: bronquiolite.
O que é o VSR e o que ele causa
Bronquiolite é o nome do quadro. O vírus sincicial respiratório (VSR) é, quase sempre, a causa dele.
O VSR é, ano após ano, a principal causa de internação de bebês no primeiro ano de vida —e, nos dois primeiros anos, a principal causa de hospitalização e morte por doença respiratória, segundo Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Ele descreve uma doença de grande peso para o sistema de saúde, público e privado: ocupa leitos, enche prontos-socorros, adia cirurgias. Nos bebês, o vírus inflama os bronquíolos —os menores canais por onde o ar chega ao pulmão. Inchadas, essas vias se fecham e dificultam a respiração; daí o nome, bronquiolite.
Raquel Stucchi, infectologista e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica por que os primeiros meses são os mais perigosos. As infecções respiratórias são mais graves nos extremos da vida, e, nos bebês de menos de seis meses, o risco se soma a uma desvantagem física: o pulmão ainda não terminou de se formar.
Nos casos graves, a inflamação toma a região em que o sangue troca oxigênio, e o corpo passa a receber menos do que precisa; a criança pode necessitar de suporte respiratório —às vezes até de um respirador.
Quando a oxigenação cai, há risco de lesão nos tecidos, inclusive no cérebro. A temporada do vírus, no país, vai de março a agosto. Maitê adoeceu no fim de abril, no meio dela.
Maitê morreu por consequências do VSR, aos dois meses de idade
Arquivo Pessoal
Quatro idas num dia
Na quarta-feira, três dias depois de aparecer o primeiro sintoma, Maitê parou de mamar. Passara a terça estável e piorara de madrugada; ao amanhecer, já era outra criança —recusava o peito, ficava de olhos fechados e respirava com esforço.
Ao longo daquele único dia, Eshiley a levou quatro vezes a serviços de saúde. Numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA), uma médica teria dito que a menina precisava ser internada, mas a colocou no oxigênio, aplicou uma injeção e liberou a família por volta das duas da tarde. Pediu um exame de sangue, anotou o telefone de Eshiley e prometeu ligar se houvesse alteração. Nunca ligou.
Poucas horas depois de voltarem para casa, Maitê piorou outra vez. A família correu com a bebê para o hospital, que, afirma Eshiley, não quis atendê-la e a mandou de volta à UPA. Lá, enquanto a mãe preenchia a ficha, a enfermeira do acolhimento reconheceu a menina no colo da bisavó, estranhou que não tivesse sido internada e a levou direto à emergência.
Chegou ao hospital às 18h15 e entrou logo em parada cardíaca. Ao ser intubada, broncoaspirou.
Entre as 18h15 e as 20h30, teve cinco paradas. O médico conseguiu estabilizá-la e alertou Eshiley que, depois de tudo aquilo, a menina poderia sobreviver com sequelas graves.
Às 21h30, ela deixou São João para ser transferida à Unicamp. Vinte minutos depois, na estrada, teve outra parada. A ambulância encostou na cidade vizinha de Estiva Gerbi, e Maitê morreu ali.
Eshiley pulou da ambulância, sozinha, numa rodovia de caminhões. Ligou para a mãe. Não se lembra de mais nada. A memória implodiu.
Cinco por cento
A vacina que poderia ter reduzido o risco de a doença atingir Maitê de forma grave já existia quando ela nasceu. Eshiley sabia dela. “Era cara demais”, diz. “Não pude pagar”.
Uma dose, na rede privada, custava por volta de R$ 3.500 durante a gestação; depois do nascimento, o anticorpo monoclonal imunizante já aplicado no bebê passava de R$ 4.000. Para uma balconista de farmácia, estava fora de alcance.
O que Eshiley viveu tinha tamanho nacional. Nos meses em que Maitê nasceu e morreu, a cobertura da vacina materna contra o VSR no Brasil girava em torno de 5% das gestantes —cerca de uma em vinte, quase todas na rede privada.
Ao longo de quase todo o ano de 2025, o índice mal saiu da faixa de 5% a 6%. Como os números de vacinação reúnem as redes pública e privada, integradas à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), essa cobertura baixa desenha com boa precisão o alcance de quem tinha como pagar.
O imunizante fora aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2024 e chegara primeiro às clínicas particulares. Passou por avaliação positiva da Conitec em fevereiro de 2025, quando foi recomendada a incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Foi em dezembro daquele ano, apenas, que a rede pública passou a ofertar a vacina para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez.
Virada estratosférica
A partir daí, a curva virou. Em 2026, a cobertura entre gestantes chegou a cerca de 82% —quase cinco vezes o índice do ano anterior, que fechara em 17%.
O Ministério da Saúde distribuiu mais de 1,1 milhão de doses em 2025 e já passou de 1,3 milhão em 2026, com a meta de imunizar cerca de 2,5 milhões de gestantes no ano e alcançar 80% delas.
Imunização contra o VSR na rede pública
Ministério da Saúde/Arte g1
A adesão superou a de vacinas mais antigas: entre as grávidas, a proteção contra o VSR (81,85%) equiparou-se à da tríplice bacteriana contra difteria, tétano e coqueluche (81,20%) e deixou para trás as coberturas de covid-19 (54,27%) e de gripe (60,63%).
Kfouri compara o ritmo ao de outros países: os Estados Unidos levaram três temporadas para aplicar 1,7 milhão de doses maternas; o Brasil chegou a 1 milhão em quatro meses.
“É uma quebra de paradigma”, diz. “Muda o curso da doença na pediatria, no curto, no médio e no longo prazo.”
Entre a tecnologia existir e alcançar todas as mulheres, houve um intervalo de meses. Foi dentro dele que a primeira filha de Eshiley nasceu e morreu.
Vinte e oito semanas
Maitê (à esq.) e Helena (à dir.), filhas de Eshiley.
Arquivo Pessoal
A segunda gravidez chegou cedo. Maitê morreu em 30 de abril; em junho, Eshiley descobriu que estava grávida de novo —pouco mais de quatro meses depois da cesárea, o que já tornava a gestação de risco. O sentimento vinha dobrado.
“Eu estava feliz por estar grávida, mas com medo de que acontecesse de novo”, diz.
Voltou a se fechar em casa; quase ninguém conheceu Helena nos primeiros meses. Dessa vez, a dose que faltara estava na rede pública, de graça. Eshiley se vacinou com 28 semanas de gestação.
Quando uma grávida é vacinada, ela produz anticorpos que atravessam a placenta e passam ao bebê, que nasce protegido por cerca de seis meses —e é por isso, explica Stucchi, que se recomenda um intervalo de pelo menos duas semanas entre a dose e o parto, tempo de a mãe formar essa defesa.
O Brasil já usava a mesma lógica contra a coqueluche havia anos; a novidade foi surgir uma vacina segura contra um vírus que castiga justamente os recém-nascidos.
Helena nasceu de cesárea, com 36 semanas e dois dias, oito semanas depois da vacina —folga de sobra para os anticorpos passarem.
Kfouri explica por que a proteção precisa começar na mãe. Parte das vacinas aplicadas diretamente nos bebês, como as de gripe e covid-19, só valem a partir dos seis meses; é antes disso, na fase de maior risco, que a criança fica descoberta. E 70% das internações por VSR acontecem no primeiro semestre de vida.
“Foi essa janela que a imunização materna veio cobrir”, diz.
Além da vacina para as grávidas, o país oferece a bebês de alto risco um anticorpo monoclonal —que não é vacina, mas uma defesa pronta, aplicada na própria criança.
A segurança da vacinação na gravidez, acrescenta Stucchi, se apoia nos dados que embasaram a aprovação do imunizante e em estudos de países que já adotaram a estratégia como rotina.
O que os hospitais mostram
Os primeiros números desta temporada indicam recuo, concentrado exatamente onde a vacina deveria agir.
Dados do Ministério da Saúde apresentados em julho a gestores do SUS mostram que os casos graves de doença respiratória, classificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), em bebês com menos de seis meses caíram 52,5% no primeiro semestre de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025 —de 14.061 para 6.674.
Nas demais faixas etárias infantis, a queda variou entre 8% e 13%. Ou seja: o tombo foi quase cinco vezes maior no grupo protegido pela vacinação materna, e o próprio ministério lê essa diferença como sinal de que o efeito vem da vacina, e não de um inverno naturalmente mais brando.
Um estudo em andamento estima que cerca de 6,8 mil casos graves tenham sido evitados entre os menores de seis meses; nesta temporada, essas crianças responderam por perto de 35% das internações entre menores de 4 anos no auge da circulação do vírus —fatia menor do que antes de a vacina existir.
Kfouri, que acompanha os dados, mantém uma ressalva de método: o VSR tem temporadas mais e menos intensas, e só a comparação da temporada inteira dirá com precisão quanto da redução se deve à vacina e quanto é variação natural. A diferença entre o grupo vacinado e os demais, no entanto, é o tipo de sinal que os epidemiologistas procuram.
Stucchi lembra o que havia antes. Nos meses de circulação do vírus, as UTIs neonatais e pediátricas lotavam, formavam-se filas de espera, crianças em estado grave eram atendidas fora da terapia intensiva.
“Era um cenário de colapso, com crianças que deixavam de ser atendidas porque não havia mais leito”, diz.
A expectativa dela é que a bronquiolite grave por VSR se torne rara:
“Quem começar a pediatria agora talvez não veja mais um caso desses.”
Uma estratégia mais antiga
A dose contra o VSR entrou numa fileira que o SUS já oferecia às grávidas, toda ela sustentada no mesmo princípio: fazer os anticorpos da mãe atravessarem a placenta para cobrir o bebê nos primeiros meses de vida, quando ele ainda não pode se defender sozinho.
Ministério da Saúde/Arte g1
Todas são oferecidas de graça nas Unidades Básicas de Saúde. E a fileira ainda deve crescer, aponta Kfouri: há vacinas maternas em desenvolvimento contra o citomegalovírus e contra o estreptococo do grupo B —bactéria que causa meningite em recém-nascidos—, e discute-se uma contra a zika.
O mapa que sobrou
O salto na cobertura não apagou as diferenças de sempre. A média nacional de cerca de 82% esconde um país desigual: no Sudeste, a proteção entre gestantes ficou em 75,98% —a menor de todas as regiões—, enquanto no Sul passava de 88%.
Entre um extremo e outro do país, uma gestante podia ter, ou não, acesso à mesma vacina gratuita, a depender de onde morasse.
Eshiley não trata o imunizante como a certeza que teria mudado tudo —e não é isso que ele promete. Depois da morte de Maitê, uma enfermeira da vigilância epidemiológica procurou a família, e a mãe de Eshiley perguntou se a vacina teria salvado a menina. A resposta foi honesta: ajuda a evitar que a doença se agrave, mas não impede a criança de pegar a bronquiolite.
A distinção está no centro do que a vacina faz. Nenhuma dose garante que um bebê não vá se infectar pelo VSR: o vírus circula, e quase toda criança o encontra cedo. O que a imunização materna reduz, e é para isso que existe, é a chance de a infecção descambar para a forma grave: a inflamação que fecha os bronquíolos, a falta de ar, a internação.
Foi essa forma, não um resfriado, que matou Maitê —e é ela que os números de 2026 mostram recuando, com os casos graves em bebês de menos de seis meses caindo pela metade depois que a vacina chegou ao SUS.
O luto
O ano passado não parou em Maitê. Em 7 de julho, morreu o padrasto que criou Eshiley, casado com a mãe dela havia quinze anos. Em 1º de agosto, morreu a amiga com quem ela dividia a vida desde o primeiro dia de escola. Foram três perdas em pouco mais de três meses. “Foi um ano muito difícil”, ela diz, e não se alonga sobre o acúmulo.
É a pergunta que, de vez em quando, alguém lhe faz no balcão: como você não adoeceu? Eshiley conta que não teve como. Precisou ser a mais forte da casa —o marido, Lucas, sofria em silêncio, e coube a ela sustentar os dois. A dela, a dor, foi ficando para depois.
Luto de mãe não passa, e ela concorda sem hesitar. Pensa em Maitê todos os dias, e com o pensamento vêm perguntas que ela não tenta responder: como a filha estaria agora, se as duas meninas estariam juntas, se Helena —concebida poucas semanas depois— sequer existiria. Lucas e ela conversam muito sobre isso. Nenhum dos dois finge saber.
Com Helena, no entanto, quase não sobra tempo para a pergunta. Eshiley diz que mal começa a pensar em Maitê e a menina já a chama, já derrubou alguma coisa, já exige o agora. Maitê não chorava; esta chora, faz bagunça, enche de barulho uma casa que a primeira atravessou em silêncio.
Aos seis meses, já viveu mais do que a irmã teve —e é ela quem, a cada poucos minutos, puxa Eshiley de volta para o meio da sala, para o presente que insiste em fazer barulho.