Recuperação do Papa está dentro do previsto, diz Vaticano
O estadiamento do câncer de pulmão do Papa Leão XIV, processo que mede o tamanho do tumor e o quanto ele avançou pelo corpo, ainda é desconhecido e será confirmado pela análise do tumor e dos linfonodos retirados na cirurgia de terça-feira (13). É esse resultado, segundo a Associated Press, que dirá se a operação foi suficiente ou se o pontífice, de 71 anos, precisará de tratamento complementar.
O Vaticano informou que o adenocarcinoma foi confirmado e que o lobo inferior do pulmão direito foi removido, mas não divulgou o estadiamento. Parte dos linfonodos também foi retirada para exame.
Recuperação dentro do esperado
Enquanto os resultados não saem, o pontífice evolui sem intercorrências. Exames de sangue e uma radiografia do tórax feitos nesta quarta-feira (14) mostraram recuperação normal, informaram o médico pessoal do Papa, Luigi Carbone, e o cirurgião torácico Stefano Margaritora, em comunicado do Vaticano.
Leão XIV já caminha pelo quarto, faz fisioterapia respiratória e voltou a se alimentar normalmente. A cirurgia foi videoassistida, técnica minimamente invasiva que costuma exigir de 15 a 20 dias de recuperação, segundo o radio-oncologista PierCarlo Gentile, do hospital San Pietro Fatebenefratelli, em Roma, que afirma que complicações como infecções são raras.
O pulmão que restou, por sua vez, tende a compensar a perda do lobo aos poucos, sobretudo em pessoas saudáveis e ativas, e o Papa é conhecido por jogar tênis e nadar toda semana.
Arte g1
Onde a doença costuma aparecer primeiro
Os linfonodos, também conhecidos como gânglios, são pequenas estruturas do sistema de defesa espalhadas pelo corpo. Funcionam como pontos de passagem para as células do câncer quando elas começam a sair do pulmão, e por isso a presença ou a ausência de células doentes ali pesa tanto na classificação da doença.
O oncologista Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, resume o que falta saber: além do tamanho do tumor, é preciso confirmar se há uma ou mais lesões no pulmão e se os linfonodos estão comprometidos.
Boa parte dessa investigação acontece antes da operação. Exames de imagem, como o PET-CT, que mostra a atividade das células do tumor pelo corpo, indicam se há linfonodos suspeitos, e nesse caso um deles é retirado antes para confirmação, porque a doença espalhada muda a indicação de operar.
No centro cirúrgico, a equipe volta a examinar a região entre os pulmões, o mediastino, e remove o que parecer suspeito. A confirmação final vem do laboratório.
Papa antes de cirurgia para retirada de tumor do pulmão
Guglielmo Mangiapane/Reuters
O que o laboratório examina
O lobo retirado inteiro segue para o patologista, o médico que estuda o tecido ao microscópio. Para o cirurgião torácico Ricardo Terra, professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, retirar a peça inteira é um princípio da cirurgia contra o câncer. Ela deve sair com uma margem de tecido saudável ao redor, o que reduz a chance de a doença voltar. O exame verifica se essa margem foi de fato obtida, além do tamanho do tumor e do estado dos linfonodos.
Em paralelo, o laboratório procura no tumor as mutações, alterações genéticas que indicam se há remédios feitos sob medida para atacá-lo. Stefani afirma que essa busca costuma ocorrer enquanto o paciente se recupera da operação e que ela orienta qualquer tratamento adicional.
Papa Leão XIV retira um câncer do pulmão direito
Jornal Nacional/ Reprodução
Caminhos que o resultado abre
Se o tumor estiver restrito ao lobo retirado, com margem adequada e linfonodos livres, o acompanhamento pode se limitar a consultas e exames de imagem. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) recomenda tomografia a cada três meses nos dois primeiros anos e a cada seis meses até o quinto, período em que se concentra a maior parte dos retornos da doença, e depois uma por ano.
Se houver células de câncer nos linfonodos ou o estágio for mais avançado, entram os tratamentos que agem no corpo todo. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, as opções são a quimioterapia, a quimioterapia combinada com imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa a reconhecer as células doentes, ou a terapia direcionada, em comprimidos que atacam características específicas do tumor, e a escolha depende do estágio e das mutações encontradas.
Quando a margem da peça fica comprometida, a radioterapia ajuda a reduzir o risco de a doença voltar no local, segundo Stefani.
O estadiamento também ajuda a antever o desfecho. Nos dados da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC), a sobrevida em cinco anos varia de 68% a 92% nos estágios 1, de 52% a 65% no 2 e de 12% a 41% no 3, o que mostra o peso de cada etapa de avanço.
O Vaticano não informou quando o resultado será divulgado. Ele pode interferir também na agenda do Papa, que prevê visitar Uruguai, Argentina e Peru entre 6 e 17 de novembro.
Cirurgiões oncológicos costumam aconselhar a evitar viagens de avião por três semanas depois da operação.
*Com Associated Press.
