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Manter hábitos saudáveis ao longo da vida pode fazer diferença não só na prevenção, mas também no desfecho do câncer.
Um estudo publicado em março de 2026 no European Heart Journal mostra que pessoas com melhor saúde cardiovascular têm menor risco de morrer —inclusive após já terem enfrentado o diagnóstico oncológico.
Os dados vêm do estudo Moli-sani, que acompanhou mais de 24 mil participantes por cerca de 15 anos. Entre eles, 779 eram sobreviventes de câncer.
A análise revelou que aqueles com melhor pontuação em saúde cardiovascular tiveram um risco até 38% menor de morrer por qualquer causa em comparação com os que apresentavam piores indicadores.
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Os 7 fatores que fazem diferença
Para medir a saúde cardiovascular, os pesquisadores usaram um índice chamado Life’s Simple 7, criado pela Associação Americana do Coração. Ele considera sete pilares:
não fumar,
praticar atividade física,
manter alimentação saudável,
controlar o peso,
ter pressão arterial adequada,
manter colesterol sob controle,
regular os níveis de glicose no sangue.
Cada fator contribui para uma pontuação total, quanto maior, melhor o estado de saúde.
O estudo mostrou que não é só a soma desses hábitos que importa: cada ponto adicional nessa escala já está associado a uma redução no risco de morte por câncer.
Mesmo após o diagnóstico, o impacto continua
Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, o resultado reforça algo que a prática clínica já indicava, mas que agora aparece de forma mais robusta em dados de longo prazo.
Ele explica que esses hábitos funcionam em duas frentes: ajudam a reduzir o risco de desenvolver câncer ao longo da vida e, mesmo quando a doença ocorre, aumentam a chance de sobreviver a ela.
“Ter hábitos saudáveis significa que, mesmo que o paciente desenvolva câncer, ele tem mais chance de estar vivo depois”, afirma.
O elo entre coração e câncer
A relação entre saúde cardiovascular e câncer não é apenas comportamental —ela também tem base biológica. O estudo aponta que as duas doenças compartilham fatores de risco e mecanismos comuns, um conceito conhecido como “terreno biológico compartilhado”.
Entre esses mecanismos, a inflamação crônica tem papel central. Trata-se de um processo contínuo que pode danificar os vasos sanguíneos —favorecendo doenças cardiovasculares— e, ao mesmo tempo, criar um ambiente propício para o desenvolvimento e a progressão de tumores.
“Esse processo inflamatório crônico vai danificando os vasos e também diminui a capacidade do organismo de se proteger de mutações”, explica Stefani.
Mas o estudo vai além: a análise identificou que um conjunto de fatores —incluindo marcadores inflamatórios, frequência cardíaca e níveis de vitamina D— responde por mais de 50% da relação entre bons hábitos e menor risco de morte.
Isso indica que o benefício não vem de um único elemento, mas de um equilíbrio mais amplo do organismo, que influencia simultaneamente a saúde cardiovascular e o comportamento do câncer.
Não é só vitamina D, é o contexto
Um dos pontos que chamam atenção na pesquisa é a associação com a vitamina D. Níveis mais baixos aparecem ligados a piores desfechos, mas isso não significa que a reposição isolada resolva o problema.
Para Stefani, o dado precisa ser interpretado com cautela. Ele explica que a vitamina D tende a funcionar mais como um marcador do estado geral de saúde do que como causa direta.
Ou seja, mais importante do que corrigir um número no exame é atuar sobre os fatores que levam a esse desequilíbrio, como alimentação inadequada, sedentarismo e alterações metabólicas.
Essa lógica aparece também na análise da dieta. Quando os pesquisadores substituíram o critério alimentar original por um padrão mediterrâneo —rico em frutas, vegetais, peixes e azeite—, os efeitos positivos se ampliaram, com redução do risco de morte por doenças cardiovasculares, câncer e outras causas, como doenças neurológicas e respiratórias.
Uma abordagem integrada para duas doenças
Os resultados reforçam um entendimento que vem ganhando espaço na medicina: doenças cardiovasculares e câncer estão conectados —tanto pelos fatores de risco, como sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e excesso de peso, quanto por mecanismos biológicos, como a inflamação crônica.
Isso indica que medidas clássicas de prevenção do coração também podem influenciar o risco e a evolução do câncer.
Esse raciocínio sustenta a chamada cardio-oncologia, área que propõe integrar o cuidado dessas duas frentes —da prevenção ao acompanhamento de pacientes já diagnosticados, com foco no controle contínuo dos fatores de risco.
“Ter hábitos saudáveis não só reduz a chance de desenvolver a doença, como também aumenta a probabilidade de sobreviver a ela”, afirma Stefani.
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