Tatiana Sampaio, cientista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista à Reuters 27 de março de 2026
REUTERS/Pilar Olivares
A pesquisadora Tatiana Sampaio, à frente da pesquisa sobre a polilaminina, disse que o estudo vai ser publicado em uma revista com a revisão de pares. O g1 havia publicado com exclusividade que o texto havia sido recusado por duas revistas diferentes antes e que Tatiana admitiu erros no texto. Agora, ela alega que teve o aval de uma revista, mas não quis dar detalhes.
A declaração ocorre em meio ao crescente interesse pelo tratamento experimental para lesões na medula espinhal, que ainda passa por testes para comprovar sua segurança e eficácia em humanos. A Anvisa liberou o uso compassivo, mas os especialistas afirmam que é precoce a aplicação.
➡️ A polilaminina é uma proteína derivada da placenta que busca estimular a regeneração de nervos lesionados. O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultados promissores em estudos com animais e a divulgação de um estudo preliminar, em 2024, promovido pela farmacêutica Cristália, que adquiriu a patente da tecnologia e vem fazendo um investimento milionário. A Cristália investiu mais de R$110 milhões no desenvolvimento da polilaminina.
Para que uma pesquisa seja reconhecida, ela precisa passar pela revisão por pares — em que outros especialistas leem o texto e avaliam se o que está sendo apresentado foi feito de acordo com os parâmetros da ciência, se não há conflitos e vieses.
Hoje, a polilaminina não tem uma pesquisa publicada. O que existe é uma versão prévia e que Tatiana já admitiu em entrevista ao g1 em março deste ano ter erros.
Ao g1, Sampaio disse que a primeira versão corrigida do texto chegou a ser apresentada a duas revistas: a Nature Communications e o Journal of Neurosurgery. O trabalho, no entanto, foi rejeitado pelos dois periódicos.
Entre os pontos citados à época estavam: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas. (Leia mais abaixo)
Gráfico na pesquisa mostrava que paciente que já estava morto, melhorava 400 dias depois
Reprodução
Entre os pontos de falha, que Tatiana chegou a admitir em entrevista, estava um paciente que morreu poucos dias após o procedimento, mas que nos dados do estudo aparecia com melhoras registradas após cerca de 400 dias de tratamento.
Agora, ela diz que a versão foi aceita por uma publicação com revisão por pares, mas não informou qual é e nem mesmo quando deve ser publicada.
Polilaminina: por que o estudo não foi publicado por revistas científicas e quais os próximos passos da pesquisa
Nova pesquisa pode ajudar quem perdeu movimentos
Polilaminina deve começar pesquisa oficial
Apesar dos resultados apresentados no estudo, especialistas dizem que ainda há muitas dúvidas sobre a polilaminina. Todas elas devem ser solucionadas com a pesquisa autorizada pela Anvisa, mas que ainda deve ser iniciada pelo Cristália.
A pesquisa que existe é prévia e não vale para dizer se uma substância funciona ou é segura. Inclusive, no próprio estudo Tatiana e sua equipe não descartam o risco da substância.
No pré-print, os pesquisadores afirmam que mortes por pneumonia e sepse registradas entre os participantes poderiam, em princípio, estar ligadas a um possível efeito imunossupressor (capacidade de reduzir a atividade do sistema imunológico) provocado pela polilaminina.
Para garantir que a polilaminina é segura e eficaz ainda são necessários:
Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos – começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética. Ou seja, ainda não começou.
Depois, caso seja provada a segurança, vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3 – em que é avaliada a eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores.
Caso as duas fases acima sejam um sucesso, então é solicitado o registro sanitário. Após a aprovação, o medicamento pode ser comercializado.
A Anvisa autorizou um ensaio clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesões agudas completas da medula espinhal. O estudo inclui pessoas entre 18 e 72 anos tratadas em até 72 horas após o trauma.
Polilaminina: o que se sabe sobre a proteína da UFRJ que pode recuperar movimentos após lesão na medula
Se não tem pesquisa, por que pessoas estão usando?
Segundo a Cristália, que investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento do medicamento, a empresa tem doado o tratamento para pacientes agudos após autorização da agência reguladora.
No Brasil, existe uma lei que permite o uso compassivo de uma substância. Por essa via, pacientes que têm uma doença para a qual não há outra chance de tratamento podem pedir à Anvisa o uso. Essas aplicações não fazem parte de um estudo e esses pacientes não são acompanhados pela equipe de Sampaio.
Até o momento, de acordo com o Cristália, 84 pacientes receberam autorização para uso compassivo da polilaminina, sendo 44 por decisão judicial e 40 por vias administrativas.
Apesar do entusiasmo, pesquisadores e entidades científicas afirmam que ainda é cedo para concluir que o tratamento funciona.
Marco Baptista, diretor científico da Fundação Christopher & Dana Reeve, classificou a pesquisa como inovadora e promissora, mas destacou que ela representa apenas uma entre diversas abordagens experimentais ainda em fase inicial de desenvolvimento. Segundo ele, é necessário confirmar tanto a segurança quanto a eficácia do tratamento antes de qualquer conclusão.
A Academia Brasileira de Neurologia também defende cautela. O presidente da entidade, Delson José da Silva, afirmou que a comunidade científica deseja o sucesso da pesquisa, mas que ela precisa cumprir os critérios exigidos para validação científica.
Por que o estudo ainda não tinha sido aceito por revistas científicas
Em março deste ano, o g1 destacou que revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do texto: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas.
Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa.
Tatiana informou ao g1, à época, que ela havia tido três recusas de sua versão já revisada: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery.
A pesquisadora disse que iria corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão.
Segundo Tatiana, os pontos que seriam corrigidos são:
Erro em gráfico de paciente
Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura.
Mudança na forma como exame é mostrado
Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostrou alterações claras. Segundo ela, a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos.
Explicação sobre choque medular
Outro ponto que vinha sendo debatido por especialistas era a possibilidade de que alguns pacientes pudessem estar em choque medular no momento da avaliação inicial.
➡️ O QUE É O CHOQUE MEDULAR? É uma fase temporária que pode ocorrer logo após uma lesão na medula espinhal, quando a pessoa perde os reflexos e a atividade nervosa abaixo do local do trauma.
Esse estado temporário pode interferir em exames usados para classificar a gravidade da lesão, em que elas poderiam ser menos graves do que o visto pelos pesquisadores. Como essa condição não estava detalhada no pré-print original, pesquisadores apontavam que isso poderia ser um ponto cego na interpretação dos resultados.
Na versão revisada do pré-print, Tatiana afirma que nenhum paciente estava em choque medular e que todos passaram por exames prévios para avaliar essa possibilidade. Segundo ela, não foi utilizado o procedimento considerado padrão-ouro para essa confirmação — que exige alguns dias de observação — porque a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão.
➡️ Apesar disso, o pré-print não cita quantos participantes foram avaliados e não incluídos na pesquisa. Esse é um ponto que vem sendo levantado por especialistas em pesquisa clínica.
Em estudos clínicos, é importante explicar como os participantes foram escolhidos. Isso ajuda a evitar vieses, que é quando a forma de selecionar os pacientes pode influenciar os resultados.
Tatiana Sampaio alega que pesquisa da polilaminina revisada por pares vai ser publicada, mas não dá detalhes
Tatiana Sampaio alega que pesquisa da polilaminina revisada por pares vai ser publicada, mas não dá detalhes