Com terapias modernas, câncer caminha para se tornar doença crônica controlável
Pela primeira vez, sete em cada dez pessoas diagnosticadas com câncer nos Estados Unidos vivem pelo menos cinco anos após o diagnóstico. O dado aparece no relatório anual “Cancer Statistics 2026”, divulgado pela American Cancer Society, e é considerado um marco histórico no enfrentamento da doença, que por décadas foi associada a baixíssimas chances de sobrevivência.
Na metade dos anos 1990, apenas 49% dos pacientes alcançavam esse patamar. Desde então, a melhora foi contínua e se acelerou nos últimos anos, impulsionada por avanços no diagnóstico precoce, pela ampliação do acesso aos tratamentos e pelo desenvolvimento de terapias cada vez mais eficazes.
O ganho se estende inclusive a cânceres historicamente associados a prognóstico ruim, embora os autores ressaltem que o progresso não é homogêneo.
⚠️ A taxa de sobrevida em cinco anos indica a proporção de pessoas que permanecem vivas cinco anos após o diagnóstico, independentemente de estarem ou não curadas. Especialistas usam esse indicador para comparar avanços ao longo do tempo e entre países, mas ele não reflete necessariamente a ausência da doença nem a qualidade de vida dos pacientes.
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O que mudou nas últimas décadas
De acordo com o relatório, o índice de 70% de sobrevida em cinco anos resulta de transformações graduais, mas consistentes, no cuidado oncológico. Entre os principais achados estão:
Sobrevida geral: a taxa combinada de sobrevivência em cinco anos subiu de 49% nos anos 1990 para 70% no período mais recente.
Mieloma múltiplo: a chance de estar vivo cinco anos após o diagnóstico passou de 32% para 62%.
Câncer de fígado: a sobrevida em cinco anos aumentou de 7% para 22%, um dos maiores saltos proporcionais observados.
Melanoma metastático: a taxa mais que dobrou, indo de 16% para 35%, impulsionada sobretudo pela imunoterapia.
Câncer de pulmão localmente avançado: a proporção de pacientes vivos após cinco anos dobrou em relação aos anos 1990, embora o tumor siga entre os mais letais.
Diferença por estágio: pacientes diagnosticados em fases iniciais apresentam taxas de sobrevivência muito superiores às observadas em casos metastáticos, reforçando a importância do diagnóstico precoce.
Apesar dos avanços, o câncer ainda deve causar mais de 626 mil mortes nos Estados Unidos em 2026, com o câncer de pulmão permanecendo como o principal responsável por óbitos —superando, sozinho, os cânceres colorretal e de pâncreas somados.
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Avanços reais, mas desiguais
Para o oncologista Stephen Stefani, médico do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, os números representam um avanço concreto, mas precisam ser lidos com cautela.
“A epidemiologia do câncer não é estática. Temos mais incidência de alguns tumores, menos de outros, mais cura em determinadas doenças. Essa fotografia nunca está parada”, afirma.
Segundo Stefani, os ganhos refletem diagnósticos mais precoces, maior chegada dos pacientes aos tratamentos e terapias mais sofisticadas.
“No melanoma, triplicamos a chance de o paciente estar vivo em cinco anos. No câncer de fígado, saímos de 7% nos anos 1990 para cerca de 22% hoje. No pulmão localmente avançado, dobramos a proporção de pacientes vivos após cinco anos”, diz.
Ele ressalta, no entanto, que o avanço não veio acompanhado de redução proporcional dos custos.
“Mudamos o número simbólico dos 70%, mas não mudamos o custo. Estamos ganhando vida em praticamente todos os cenários, e isso é excelente. O problema é que os avanços são caros”, afirma.
Em países mais pobres, o ganho é bem menor
O cenário descrito no relatório norte-americano, no entanto, está longe de ser a regra no mundo. Estudos globais mostram que os ganhos em sobrevida ao câncer são muito mais modestos —ou praticamente inexistentes— em países de baixa e média renda, onde o acesso ao diagnóstico precoce e às terapias mais modernas ainda é limitado.
Uma análise publicada na revista The Lancet indica que, embora as taxas de mortalidade por câncer padronizadas por idade estejam em queda global, o ritmo é insuficiente para cumprir a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de reduzir em um terço as mortes por doenças crônicas até 2030.
A projeção é de que o crescimento da carga do câncer seja desproporcionalmente maior em países com menos recursos, impulsionado pelo envelhecimento da população e por sistemas de saúde frágeis.
Dados do Estudo Global da Carga de Doenças (GBD 2023) reforçam esse desequilíbrio: quase 66% das mortes por câncer no mundo já ocorrem em países de baixa e média renda, proporção que tende a aumentar nas próximas décadas, caso não haja investimentos sustentados em prevenção, diagnóstico e tratamento.
Para Stefani, o risco é a ampliação da desigualdade dentro e entre os países.
“Quem tem acesso a planos de saúde ou ao sistema privado chega a resultados próximos aos de países desenvolvidos. Já quem depende de sistemas subfinanciados fica cada vez mais distante do que a medicina hoje é capaz de oferecer”, afirma.
O desafio daqui para frente
O oncologista avalia que, para mitigar o cenário, a prevenção é fundamental. Ainda assim, alerta que seus efeitos costumam ser mais lentos do que o crescimento da demanda por tratamento. “A incidência e o consumo de recursos estão crescendo em ritmo muito mais rápido do que a capacidade de resposta dos sistemas de saúde.”
Para ele, enfrentar o desafio exigirá decisões difíceis, como investimento em dados confiáveis, debate sobre precificação de novas drogas, ampliação da pesquisa local e cooperação internacional.
“A gente festeja os 70%. Mas lamenta que eles ainda não sejam para todo mundo.”