Sindicâncias contra médicos crescem 41% em SP; entre não médicos, aumento é de 90%; complicações em estética impulsionam alta

Sindicâncias contra médicos crescem 41% em SP; entre não médicos, aumento é de 90%; complicações em estética impulsionam alta


Complicações em estética crescem 41% entre médicos e 90% entre não médicos em SP
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O aumento de complicações em procedimentos estéticos no Brasil preocupa especialistas. Um levantamento do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) mostra que o número de sindicâncias em geral contra médicos cresceram cerca de 41% em dois anos, enquanto denúncias envolvendo profissionais não médicos aumentaram em 90,3%.
Para especialistas, o avanço está ligado, principalmente, à realização de procedimentos por pessoas sem formação adequada e este cenário tem levado pacientes a quadros graves, com risco de morte.
Entre os médicos, os números revelam um crescimento consistente das ocorrências, de 41,4%:
Em 2023, foram 2.830 sindicâncias
Em 2025, o número que subiu para 4.002
Além de casos relacionados à estética, esses números englobam diferentes naturezas de ocorrência, como assédio, propaganda irregular e possíveis falhas na prática médica.
Já os casos envolvendo profissionais não médicos, as ocorrências quase dobraram, com um aumento de 90,3%:
Em 2024, foram 248
Em 2025, 472
Além disso, foram registradas 44 ações judiciais relacionadas a procedimentos estéticos. A maior parte das queixas envolve preenchimentos faciais e aplicações de substâncias para modelagem corporal.
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Casos graves se tornam mais frequentes
Segundo o cirurgião plástico Luiz Haroldo Pereira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o aumento dos números de complicações em procedimentos estéticos reflete uma realidade já observada nos consultórios: a chegada de pacientes com complicações graves e, muitas vezes, em estágio avançado.
Entre os problemas relatados, estão necrose, infecção, cicatrizes, deformidades, falta de vascularização e até risco de morte. Em alguns casos, os danos são permanentes ou de difícil correção. O especialista cita ainda situações como:
lesões de ductos salivares após procedimentos na face
assimetrias e irregularidades faciais
paralisias decorrentes de aplicações mal feitas
Substâncias proibidas e técnicas inadequadas
Entre os quadros mais preocupantes, estão aqueles associados ao uso de substâncias proibidas para uso com fins estéticos, como o polimetilmetacrilato (PMMA) e o silicone líquido. Segundo Pereira, esses materiais podem causar deformidades graves e até levar à morte.
Procedimentos como lipoaspiração, aplicação de toxina botulínica e preenchimentos, também aparecem entre as complicações, quando realizados sem técnica adequada. Nesses casos, podem ocorrer:
retirada irregular de gordura
lesões em tecidos
necrose de pele
alterações funcionais
Mercado cresce e risco acompanha
O crescimento do setor ajuda a explicar o cenário. O mercado de estética no Brasil movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e segue em expansão, impulsionado pela alta demanda e pela popularização nas redes sociais.
O Conselho Federal de Medicina registrou 9.566 casos de exercício ilegal da medicina entre 2012 e 2023, sendo cerca de 61% ligados a procedimentos estéticos.
Segundo a Anvisa, clínicas de estética concentram 52% das denúncias em serviços de saúde.
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Médicos tratam 5 complicações por mês relacionadas a procedimentos feitos por não médicos
Um levantamento nacional com mais de mil médicos brasileiros e coordenado pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais investigou, por meio de um questionário online, complicações em pacientes submetidos a procedimentos realizados por não médicos. O estudo constatou que:
Mais de 12% dos pacientes atendidos por especialistas no Brasil já passaram por procedimentos estéticos realizados por profissionais não médicos
Cada médico trata, em média, 5 casos de complicações por mês relacionadas a esses procedimentos
Cerca de 17% dos casos evoluem com sequelas permanentes
Dentistas (94,6%) e biomédicos (91,8%) são os profissionais mais frequentemente citados nos casos de procedimentos que resultaram em complicações
89% dos médicos relatam atender até 15 pacientes por mês com complicações decorrentes de procedimentos feitos por não médicos
O levantamento analisou procedimentos incluindo:
toxina botulínica
preenchimentos
bioestimuladores
peelings profundos
microagulhamento
transplante capilar
lipoaspiração
uso de laser e enzimas
As complicações mais comuns incluem:
cicatrizes (78,7%)
inflamações (72,2%)
infecções (65,4%)
necrose (28,9%)
Em média, cada caso de complicação exige o acompanhamento de até três especialistas e o os pacientes costumam precisar de sete a oito consultas por ano para tratar essas complicações. Muitos casos exigem múltiplas cirurgias e tratamentos complementares ao longo do tempo.
Apesar de serem vistos como simples, procedimentos como preenchimentos e toxina botulínica apresentam riscos importantes, como infecção, necrose, embolia e reações alérgicas, segundos especialistas.
O fenômeno desses tipos de complicações é global e impulsionado, em parte, por redes sociais e publicidade enganosa, especialmente voltada a jovens.
O levantamento reforçou a necessidade de maior regulação, melhor comunicação com a população e mais conscientização sobre riscos.
Redes sociais, escolha do profissional e banalização dos procedimentos
Para especialistas, a forma como os procedimentos são divulgados nas redes sociais contribui para a percepção de baixo risco. Resultados positivos são amplamente exibidos, enquanto complicações raramente aparecem.
Esse cenário pode influenciar decisões rápidas e pouco informadas por parte dos pacientes, aumentando a procura por procedimentos sem avaliação adequada.
Para especialistas, a principal forma de reduzir riscos está na escolha do profissional. A recomendação é buscar médicos qualificados e evitar procedimentos realizados por pessoas sem habilitação adequada.
Pereira destaca que a formação em cirurgia plástica exige anos de estudo e especialização, o que impacta diretamente na segurança dos procedimentos.
“O procedimento estético deveria seguir a mesma lógica de segurança de outras áreas: ninguém aceitaria entrar em um avião com um piloto não habilitado”, afirma.
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Contexto regulatório no Brasil
Inicialmente, não médicos atuavam em procedimentos simples. Com o tempo, passaram a realizar intervenções mais invasivas, como cirurgias estéticas, muitas vezes sem estrutura adequada, aumentando os riscos. Esse cenário criou desafios para o Conselho Federal de Medicina e outras autoridades reguladoras.
A Lei do Ato Médico, de 2013, define como privativos de médicos os procedimentos invasivos, especialmente aqueles que envolvem risco e exigem capacidade de diagnóstico e manejo de complicações. Desde a sanção da lei, esse tema vem sendo constantemente tensionado por resoluções de outros conselhos profissionais que ampliam a atuação em estética.
Um exemplo concreto recente é a disputa entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Federal de Odontologia (CFO) sobre a realização de procedimentos estéticos faciais por dentistas, como harmonização orofacial e até cirurgias. Essas discussões têm sido levadas à Justiça e também ao debate legislativo, justamente por envolverem a delimitação de competências entre as profissões da saúde.
Além disso, entidades como o Conselho Federal de Medicina, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a Sociedade Brasileira de Dermatologia vêm levando esse tema a parlamentares, diante do aumento das complicações. Elas defendem uma regulamentação mais clara sobre quem pode realizar procedimentos invasivos.

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