Sete em cada dez homicídios no Brasil foram cometidos com arma de fogo em 2024, diz Atlas da Violência

Sete em cada dez homicídios no Brasil foram cometidos com arma de fogo em 2024, diz Atlas da Violência


Brasil registra menor número de homicídios da série histórica
Sete em cada dez homicídios registrados no Brasil em 2024 foram cometidos com armas de fogo, segundo o Atlas da Violência 2026. A categoria inclui dispositivos que utilizam força expansiva para disparar projéteis por meio de um cano — como revólveres, pistolas, espingardas, rifles, fuzis e até metralhadoras.
As informações do estudo foram divulgadas nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Segundo o levantamento, ao todo, o Brasil contabilizou 29.870 homicídios por arma de fogo. Trata-se de 70,1% do total de 42.590 homicídios oficialmente registrados pelo Ministério da Saúde em 2024.
Esta é a menor proporção de homicídios cometidos com arma de fogo desde 2014, embora o índice permaneça próximo das médias históricas. Em relação a 2023, houve queda de 8,8%.
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Mais mortes por armas no Nordeste
Ao mesmo tempo, os dados mostram que a redução ocorreu na maior parte do país, mas de forma desigual entre os estados.
O Nordeste concentra oito dos dez estados com maior participação de armas de fogo nos homicídios registrados: Ceará (85,6%), Paraíba (83,9%), Bahia (81,1%), Pernambuco (79,1%), Rio Grande do Norte (78,6%), Alagoas (76,1%), Sergipe (75,5%) e Maranhão (73,5%). Completam a lista Amapá (83,7%) e Rio Grande do Sul (71,8%). A média nacional é de 70,1%.
Infográfico – Taxa de homicídios por arma de fogo nos estados em 2024.
Arte/g1
Na outra ponta, Distrito Federal (40,6%), Roraima (43,7%) e Tocantins (49,8%) registraram as menores proporções de homicídios cometidos com armas de fogo.
Considerando os dados dos últimos dez anos, todos os estados do Sudeste reduziram a participação de armas de fogo nos homicídios. Já no Norte, cinco dos oito estados registraram tendência de alta no período.
Os maiores aumentos foram observados no Amapá (+40,9% em dez anos) e em Roraima (+41,7%). Em sentido oposto, o Distrito Federal teve a maior redução do país: queda de 45,9% nos registros de homicídios cometidos com armas de fogo na última década.
O que explica essas diferenças?
Segundo Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, essa desigualdade acontece por causa de uma combinação entre três fatores: transição demográfica, políticas públicas estaduais e a governança do crime organizado.
“Quando a gente fala da transição demográfica rumo ao envelhecimento da população, o Brasil está passando por uma transição mais rápida, se você comparar outros países desenvolvidos. No entanto, essa transição não aconteceu de maneira uniforme entre as unidades federativas”, explica ao g1.
“Quais foram as unidades federativas que diminuíram mais rapidamente a proporção de jovens? Foram exatamente os estados do Sul e do Sudeste. Quais são as unidades federativas que ainda não tiveram muito essa transição demográfica ainda, ou nem começaram ela? Estados do Norte e Nordeste.”
Já as políticas públicas estaduais são os diferentes métodos através dos quais os estados buscam a segurança pública. Para Cerqueira, a qualidade das ações estaduais deveria ser o foco dos gestores.
“Muitos ainda pensam que é simplesmente botar a polícia na rua, o que não é verdade. Eu acho que está começando a melhorar em vários estados, mas ainda não tomou conta de muitos”, afirma. Como um bom exemplo de política com base em “inércia”, o especialista cita o Pacto pela Vida, programa de defesa social lançado em 2007 em Pernambuco. Segundo a Secretaria da Defesa Social do estado, o programa, que investia na prevenção e no combate à criminalidade, colaborou para a proteção de mais de 17 mil vidas.
Por fim, quando fala em governança criminal, Cerqueira se refere às facções que operam nos territórios e a forma de gestão de cada uma. “Você tem facções que são mais profissionalizadas, como, por exemplo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que é quase uma SA. São profissionais, que não querem mais ficar fazendo guerra de varejo do narcotráfico. Eles têm interesse no crime profissional, que entra nas empresas e lava dinheiro.”
Segundo o especialista, a tendência em estados com esse tipo de crime organizado é ter menos homicídios. Isso acontece porque os membros das facções sabem que, se houver mortes e guerra, a polícia irá intervir.
Já o cenário que prevalece no Nordeste é caracterizado como “difícil” pelo técnico de pesquisa. “Você tem facções menores, de jovens, que estão querendo ter o controle para o varejo de drogas ali no território. São jovens que estão querendo se afirmar nesse mundo, o que quer dizer que usam de muita violência e sem muito controle”. Cerqueira destaca que as armas utilizadas por estes jovens estão cada vez mais potentes.
Circulação ilícita de armas
O Atlas da Violência também aponta para o crescimento do uso de armas mais modernas e letais. O estudo cita um artigo acadêmico de Langeani e Pollachi (2025), que analisou a circulação ilícita de armas de fogo no Brasil entre 2019 e 2023.
Segundo o artigo, houve queda na apreensão de revólveres, que passaram de 38% para 35%, e aumento no confisco de pistolas semiautomáticas, de 17% para 28%. Ao mesmo tempo, foi registrada maior incidência de armas de estilo militar: de 1,7% para 2,4% no país e de 3% para 4,3% no Sudeste.
Para os pesquisadores, a mudança sugere maior acesso de organizações criminosas a diferentes tipos de armamento, provenientes de origens distintas. Rifles, por exemplo, costumam estar ligados ao tráfico internacional, com armas e peças vindas dos Estados Unidos, além da produção doméstica irregular de dispositivos sem número de série. Já as metralhadoras tendem a ser desviadas de arsenais militares ou de forças de segurança.
Ainda de acordo com o artigo, o cenário está diretamente ligado à flexibilização no acesso a armas de maior calibre entre 2019 e 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A hipótese dos autores é de que, neste período, a ampliação do mercado legal contribuiu para o desvio de armamentos ao mercado ilegal.
“Evidências indicam que uma parcela significativa das armas utilizadas por organizações criminosas têm origem em aquisições legais realizadas por civis, posteriormente desviadas para atividades ilícitas”, detalha o Atlas.

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