Jovens não precisam mais de álcool e cigarro para parecerem adultos, diz psiquiatra especialista em alcoolismo

Jovens não precisam mais de álcool e cigarro para parecerem adultos, diz psiquiatra especialista em alcoolismo


Jovens não precisam mais de álcool e cigarro para parecerem adultos, diz psiquiatra especialista em alcoolismo
Adobe Stock
No passado, adolescentes muitas vezes precisavam colocar o cigarro numa mão e uma bebida alcoólica na outra mão, imitando o comportamento de um adulto, para se sentirem adultos, destaca o psiquiatra e especialista em dependência de álcool e drogas Arthur Guerra. Mas isso vez mudando cada vez mais.
Neste Dia Nacional de Combate às Drogas e Alcoolismo, o g1 e o Bem-Estar destacam que o número de brasileiros que afirmam não ter consumido álcool ao longo de todo o ano chegou a 64% em 2025 — um salto em relação aos 55% registrados em 2023. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a mudança é ainda mais expressiva: a proporção dos que declaram não ter bebido passou de 46% para 64%.
Os dados são do relatório “Álcool e a Saúde dos Brasileiros – Panorama 2025”, do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – que reúne análises sobre padrões de consumo, internações e mortalidade no país, além de contextualizar o cenário mundial com base em informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para Guerra, a redução do consumo de álcool acompanha uma tendência internacional. Ele destaca que o abuso de álcool e mesmo a dependência deixaram de ser algo chic e sofisticado.
Mas apesar desse avanço na abstenção, os impactos do álcool na saúde pública seguem elevados. Entre 2010 e 2024, as internações relacionadas ao consumo cresceram 24,2% no Brasil. No cenário global, 2,6 milhões de mortes foram atribuídas ao álcool em 2019.
O estudo destacou também o avanço dos danos entre pessoas com 55 anos ou mais. Nesta faixa etária houve crescimento de 105% nas internações atribuíveis ao álcool entre 2010 e 2024. E esta foi a única faixa etária com aumento consistente na mortalidade por álcool no período analisado, com alta de 51% entre 2010 e 2023.
Internações por alcoolismo crescem no país: 4 pessoas são hospitalizadas por hora
Jovens puxam alta da abstenção
A pesquisa domiciliar realizada pela Ipsos a pedido do CISA mostra uma mudança consistente no padrão recente de consumo no Brasil:
64% dos brasileiros declararam não ter bebido álcool durante todo o ano, ante 55% em 2023;
Entre jovens de 18 a 24 anos, a abstenção saltou de 46% para 64%;
Entre pessoas com ensino superior, passou de 49% para 62%;
O uso abusivo caiu de 17% para 15%.
Para Guerra, a redução do consumo de álcool acompanha uma tendência internacional. “Essa redução segue um padrão mundial, não só no Brasil, mas nos outros continentes. É uma tendência nesse momento. Nós precisamos observar mais tempo para entender por que as pessoas, de forma geral, estão bebendo cada vez menos”, afirma.
Segundo Guerra, o comportamento social em relação ao álcool mudou. O abuso de álcool e mesmo a dependência deixou de ser algo chic e sofisticado.
“O uso de álcool existe há milhares de anos e provavelmente o vai continuar existindo por milhares de anos no futuro. O que hoje em dia tem sido discutido é a ingestão excessiva de álcool. Beber muito deixou de ser uma atividade interessante e passou a ser uma atividade preocupante”, afirma.
Entre os jovens, o psiquiatra observa uma transformação cultural. “O consumo de álcool para que o jovem fique alcoolizado é um comportamento cada vez menos frequente.” Para ele, o consumo eventual e social é mais tolerado, mas o excesso perdeu espaço.
Apesar da redução, o consumo abusivo ainda é mais frequente entre homens, adultos de 25 a 44 anos e moradores das regiões Norte e Centro-Oeste. Outros dados chamam a atenção:
82% dos consumidores abusivos acreditam beber de forma moderada
e apenas 9% reconhecem que bebem excessivamente e precisam mudar.
Fígado sobrecarregado: hábitos podem prevenir e reverter a gordura hepática, que já afeta 30% dos adultos
Internações aumentam mesmo com queda no consumo
Entre 2010 e 2024, as internações totalmente atribuíveis ao álcool diminuíram 48,4%. Já as parcialmente atribuíveis aumentaram 50,3%. Como resultado, o total de internações relacionadas ao álcool (somando as duas categorias) cresceu 24,2% no período.
O relatório utilizou dados do Datasus e aplicou as Frações Atribuíveis ao Álcool recomendadas pela OMS para estimar o impacto do consumo em diferentes doenças e agravos.
2,6 milhões de mortes no mundo
Segundo a OMS, embora o consumo per capita tenha diminuído levemente desde 2010, o impacto permanece significativo. Em 2019, o álcool foi responsável por:
2,6 milhões de mortes (4,7% do total global);
115,9 milhões de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (4,6% da carga mundial de doenças).
O consumo médio global foi de 5,5 litros por adulto ao ano em 2019. A Europa e as Américas registraram níveis acima da média mundial.
Idosos concentram crescimento de internações
A edição 2025 do Panorama destaca ainda o avanço dos danos entre pessoas com 55 anos ou mais. Essa faixa etária apresentou crescimento de aproximadamente 105% nas internações atribuíveis ao álcool entre 2010 e 2024 — 127,5% entre homens e 99% entre mulheres.
Na mortalidade, foi a única faixa etária com aumento consistente no período analisado, com alta de 51% entre 2010 e 2023.
Benefícios de reduzir ou parar de beber
Guerra destaca que diminuir ou interromper o consumo de álcool traz ganhos importantes:
Perda de peso
Melhora do sono e qualidade de vida
Sensação de segurança
Melhora na ansiedade
Melhora da função hepática
Melhora na capacidade cognitiva – atenção, pensamento e memória
Melhora do sistema cardiovascular
Menor risco de desenvolver câncer
“O álcool é muito calórico. Não dá para fazer regime, perder peso se não cortar bebida alcoólica. Quando a pessoa para de beber, de imediato há uma melhora no pensamento, na atenção, na memória”, afirma.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que a redução do consumo não elimina automaticamente os impactos acumulados ao longo dos anos.
O Brasil vive hoje um cenário paradoxal: mais pessoas dizem não beber, especialmente entre os jovens, mas os danos associados ao álcool ainda pressionam o sistema de saúde — um sinal de que o desafio vai além da escolha individual e exige políticas públicas consistentes de prevenção e cuidado.
Fígado abstêmio: o que acontece com seu fígado após 24 horas, 7 dias ou 30 dias sem álcool

Postagens relacionadas

Quanto mais proteína, mais músculo? A verdade por trás desse mito

Como gatos podem fornecer chave para cura do câncer em humanos

Brasil pode evitar até 236 mil mortes em 20 anos com imposto sobre ultraprocessados, aponta estudo