Índice
O resultado fica atrás apenas de março de 2016, quando o principal índice da bolsa avançou 16,97%, e de novembro de 2020, que teve alta de 15,90%.
Entre os meses de janeiro, foi o melhor desempenho desde 2006, quando subiu 14,55%, segundo dados da B3.
O Ibovespa encerrou esta sexta-feira (30) em queda de 0,97%, aos 181.364 pontos. Ainda assim, o recuo não foi suficiente para apagar os ganhos: além do avanço no mês, o índice acumula valorização de 42,90% em 12 meses.
Para analistas do mercado, não se trata de empolgação passageira. A expectativa é que o Ibovespa mantenha o fôlego e encerre 2026 com desempenho sólido, apoiado em fatores econômicos relevantes ao longo dos próximos meses.
Entre os principais vetores estão os possíveis cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos — movimentos que tendem a favorecer ativos de maior risco, como as ações negociadas em bolsa.
Além disso, as ofensivas geopolíticas do presidente americano, Donald Trump, têm gerado instabilidade e receio nas economias desenvolvidas, levando investidores a buscar mercados emergentes, como o brasileiro.
Mas o cenário não é garantia de resultados: os mesmos fatores de incerteza que favorecem o mercado brasileiro podem, a depender dos desdobramentos, frear ou reverter a alta. Nesse contexto, pesam especialmente a imprevisibilidade de Trump e o cenário eleitoral no Brasil.
Entenda abaixo como cada um desses pontos impacta os mercados e o que esperar para o Ibovespa em 2026.
Painel mostra variação de mercado na B3, em São Paulo. — Foto: Amanda Perobelli/Reuters
Juros no radar e o Brasil como ‘porto seguro’
Nos EUA, também há expectativa de corte nos juros até o fim deste ano. Em 2025, o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, cortou a taxa três vezes, reduzindo o referencial à faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, o menor patamar desde setembro de 2022.
- 🔎 Na prática, juros menores nos EUA diminuem o rendimento das Treasuries, os títulos do governo americano, que são vistos como os investimentos mais seguros do mundo. O movimento faz investidores buscarem aplicações mais rentáveis em mercados emergentes. Nesse cenário, o Brasil tem se destacado, favorecendo a bolsa e o real.
“Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança”, explica André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica.
O especialista reforça que os riscos geopolíticos intensificados por Trump — como a ofensiva na Venezuela, que resultou na prisão do líder Nicolás Maduro, e as ameaças de anexação da Groenlândia — têm tornado o Brasil um “porto seguro”, com potencial de boa rentabilidade para investidores.
Entrada de estrangeiros
Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, destaca que o investimento internacional tem desempenhado papel preponderante no mercado interno.
Em 2025, investidores não residentes no Brasil aplicaram R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa de valores brasileira, lembra o economista. “Em 2026, até 20 de janeiro, esses investidores já somam R$ 8,7 bilhões líquidos em compras de ações brasileiras.”
“Ou seja, o investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice local renovar máximas é grande”, acrescenta.
Mas o que pode azedar os ânimos?
Para economistas, a palavra que deve resumir o Ibovespa em 2026 é volatilidade. Embora as projeções ainda apontem para um saldo positivo, o sobe e desce da bolsa deve ganhar protagonismo diante do fator Trump e do calendário eleitoral brasileiro, em outubro.
André Galhardo, da Análise Econômica, destaca que investidores não avaliam apenas o potencial de valorização das empresas listadas, mas também os riscos no radar.
“Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo”, analisa.
Dyego Galdino, CEO da Global 360 Invest, segue a mesma linha. Ele reforça que a política comercial do republicano, por meio de ameaças e aplicação de tarifas, pode gerar pressão inflacionária global e afetar os preços das commodities.
“Os resultados das grandes empresas podem desacelerar, deixando o mercado dependente das expectativas em relação às empresas de tecnologia”, diz.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que a alta de 34% do Ibovespa em 2025 foi puxada exclusivamente por fatores externos e que o Brasil, apesar do bom desempenho da bolsa, segue enfrentando problemas fiscais — ou seja, dificuldades nas contas públicas.
- 🔎 A preocupação com os cofres públicos brasileiros ganhou destaque nos últimos anos, mas acabou ficando temporariamente “na gaveta”, enquanto o mercado passou a acompanhar com mais otimismo a redução dos juros nos EUA e os preços ainda baixos das ações brasileiras.
Por isso, “alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia”, diz Costa, ao indicar os riscos fiscais do país como um desafio.
O peso das eleições
As eleições devem ter papel central na volatilidade da bolsa e do dólar. Para especialistas, a oscilação do Ibovespa em dezembro funcionou como um termômetro do que o mercado deve acompanhar neste ano.
- 🔎 Para o mercado, a escolha dificulta a convergência em torno de um candidato de centro-direita — como Tarcísio de Freitas, visto como mais competitivo para unificar a direita e enfrentar Lula (PT) — e amplia a incerteza sobre ajustes fiscais mais consistentes.
Rafael Costa, da Cash Wise Investimentos, avalia que a Faria Lima não está preocupada necessariamente com o nome do vencedor, mas com os rumos da economia no próximo governo.
“Porém, é difícil esperar mudanças econômicas do atual presidente. Então, a reeleição de Lula pode causar uma quebra de expectativa no mercado”, diz.
Já André Galhardo, da Análise Econômica, acredita que um ajuste nas contas públicas é necessário — e, por isso, deverá ser anunciado no início de 2027, independentemente do presidente eleito.
“A Faria Lima tende a acreditar que uma reforma nas despesas é mais provável em governos de direita. Mas qualquer vencedor terá de adotar uma política de contenção de gastos, o que pode impactar positivamente o dólar e o mercado de ações no Brasil”, diz.
Até onde o Ibovespa pode ir?
Caso o cenário positivo prevaleça, há espaço para que o principal índice da B3 ultrapasse, pela primeira vez, os 200 mil pontos, segundo as projeções mais animadoras.
- Analistas do Itaú BBA, por exemplo, avaliam que o Ibovespa pode encerrar o ano aos 185 mil pontos. Em uma leitura mais otimista, o índice poderia superar os 252 mil pontos.
- A Santander Corretora, por sua vez, projeta que o índice alcance 195 mil pontos ao fim de 2026, com sucessivas renovações de recordes ao longo do ano.
Rafael Costa, da Cash Wise, destaca que o índice não deve avançar de forma linear, em razão da volatilidade do mercado.
“Onde o Ibovespa vai parar? Aos 180 mil, 200 mil, 250 mil pontos? Ninguém sabe. Mas, sim, há uma grande possibilidade de o mercado continuar avançando neste ano”, afirma.
Relembre o que fez a bolsa disparar em 2025
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o bom desempenho da bolsa brasileira no ano refletiu, sobretudo, os seguintes fatores:
- Cortes de juros nos EUA, com expectativa de novas reduções em 2026;
- Realocação de investimentos em meio a incertezas sobre as contas públicas e a política econômica de Donald Trump nos EUA, o que favoreceu ativos brasileiros;
- Expectativa de cortes de juros no Brasil, com o mercado de olho em 2026;
- Maior resiliência do Brasil nas tensões comerciais com os EUA, reduzindo impactos sobre empresas exportadoras;
- Ações de empresas brasileiras ainda negociadas abaixo dos níveis pré-pandemia, o que atraiu investidores;
- Expectativa de mudanças no cenário político, em especial na condução das contas públicas, com a proximidade das eleições de 2026.