Sinal de Frank: prega na orelha de Maderite pode ser alerta para doença coronariana
A presença de uma dobra diagonal no lóbulo da orelha, conhecida como “sinal de Frank”, tem sido estudada há décadas como um possível marcador visível de risco cardiovascular. O tema ganhou atenção após a morte do empresário e influenciador Henrique Maderite, aos 50 anos, por um infarto fulminante; ele apresentava uma dobra semelhante nas orelhas (veja na foto acima).
Com a repercussão do caso, a pergunta que veio para muitos: tenho um sinal parecido na orelha, o que devo fazer?
⚠️ Primeira reposta: o sinal não é um diagnóstico, mas um possível sinal de alerta que deve ser avaliado junto com outros fatores de risco.
Veja como identificar o Sinal de Frank.
Arte/g1
O cardiologista João Vicente da Silveira, da Unidade de Hipertensão do InCor da Faculdade de Medicina da USP, alerta que a dobra não deve ser encarada como sentença, mas como um sinal de atenção clínica.
“O principal risco é interpretar o sinal de forma isolada. Ele é só um indicador. Tem muita gente que tem doença coronariana e não tem esse sinal”, alerta Silveira. Estudos localizaram ainda pessoas que têm o sinal e não apresentavam doença no coração.
Hélio Amante Miot, dermatologista e docente da Faculdade de Medicina da Unesp, completa que não necessariamente ter maior risco significa a certeza do evento, mas o sinal acaba sendo uma forma de alerta.
Embora não seja um diagnóstico, a marca pode funcionar como um alerta para investigar a saúde das artérias, sobretudo quando aparece em adultos mais jovens ou vem acompanhada de outros fatores de risco.
“É um sinal, um alerta, uma pista. Uma luz vermelha que acendeu e apagou. Não necessariamente ele está com as artérias coronárias obstruídas e vai ter um infarto, mas é um alerta para o médico ficar atento e fazer exames mais específicos. E o contexto global precisa ser avaliado, como a história familiar e os fatores de risco”, afirma.
São fatores de risco para o aparecimento de problemas no coração:
pressão arterial alta (hipertensão),
níveis de glicemia elevados,
colesterol alto (dislipidemia),
tabagismo,
obesidade,
uso frequente de bebida alcoólica,
sedentarismo,
apneia do sono,
histórico familiar de doença cardiovascular.
“Qualquer um indivíduo que tenha qualquer um desses elementos ou que tenha a prega do lado diagonal deve ser investigado ponto de vista cardiovascular”, recomenda Miot.
O diretor científico do departamento de aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcio Miname, destaca que há uma associação do sinal de Frank com doença coronariana, mas esse sinal não é considerado um marcador independente. Além disso, esta associação foi observada em estudos transversais, com menos de 1000 pacientes geralmente.
O médico acrescenta que, independentemente de a pessoa ter esse sinal na orelha, ela precisa visitar o médico para ver como está a pressão, o colesterol e a glicose, por exemplo. Não é porque o paciente não tem o sinal de Frank que ele não tem problema de coração.
“Os marcadores independentes continuam sendo colesterol alto, hipertensão, diabetes e tabagismo, por exemplo. O que importa para gente não é o sinal de Frank, mas sim os fatores de risco clássicos. Apesar de existir essa associação, a gente não pode considerar isso como independente”, diz Miname.
Detalhe da imagem de marca semelhante ao sinal de Frank na orelha de Henrique Maderite
Reprodução/Redes Sociais
O que é o sinal de Frank?
Descrito pela primeira vez em 1973 pelo médico norte-americano Sanders Frank, o sinal passou a ser associado ao envelhecimento precoce dos vasos sanguíneos e à aterosclerose, processo em que placas de gordura e colesterol se acumulam nas artérias e aumentam o risco de infarto e AVC.
Há uma possível explicação biológica para a associação: o lóbulo da orelha é irrigado por microartérias, e a dobra estaria relacionada à desorganização das fibras de colágeno que dão elasticidade aos vasos. Com a perda dessa elasticidade, as artérias tendem a se tornar mais rígidas, o que favorece entupimentos e complicações como infarto e AVC.
Um estudo da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) reforça essa associação: entre 110 homens submetidos à cineangiocoronariografia, a prega diagonal no lóbulo apareceu em 60% dos pacientes com doença coronariana, contra 30% no grupo sem obstruções. Quando a dobra no lóbulo veio acompanhada de uma prega pré-auricular, o valor preditivo positivo chegou a 90%.
O cardiologista João Vicente da Silveira explica que a prega (ou dobra) costuma surgir ao longo da vida e geralmente aparece dos dois lados. Quando o sinal é observado em pessoas mais jovens, a preocupação aumenta.
“É praticamente impossível um paciente de 30 anos ter esse sinal e ter uma saúde totalmente normal. Isso é um sinal de envelhecimento das artérias e de que ele não está se cuidando”, diz Silveira.
Miot destaca que as extremidades têm pouca vascularização e sofrem mais o efeito do dano vascular. “A prega globular é um sinal de que a circulação pode não estar 100%, de que a orelha pode estar sendo mal irrigada”, explica o médico.
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O que fazer ao identificar o sinal de Frank?
A recomendação é procurar avaliação médica para checar pressão arterial e solicitar exames conforme o perfil de risco, como testes de colesterol e glicemia, eletrocardiograma, ecocardiograma e, em casos específicos, teste ergométrico ou angiotomografia das coronárias. Tudo depende de como o médico avalia o caso de cada paciente
Se houver suspeita de obstrução importante, ele pode até mesmo pedir exames invasivos como o cateterismo. A depender do resultado, o tratamento envolve mudanças no estilo de vida, uso de medicações e, quando necessário, procedimentos como a colocação de stents ou outras intervenções.
Em resumo: a dobra na orelha não “prevê” um infarto por si só, mas é um recado do corpo para olhar com mais cuidado para o coração — e agir cedo sobre os fatores que realmente fazem diferença no risco cardiovascular.
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