Corpo humano pode ter um ‘terceiro sistema circulatório’, sugerem cientistas; entenda hipótese

Corpo humano pode ter um ‘terceiro sistema circulatório’, sugerem cientistas; entenda hipótese


Sistema circulatório
Qimono/Pixabay
Durante décadas, os livros de anatomia ensinaram que o corpo humano tinha dois grandes sistemas responsáveis pela circulação de fluidos: o cardiovascular, que transporta o sangue, e o linfático, ligado à drenagem e à defesa do organismo.
Mas estudos recentes passaram a levantar a hipótese de uma terceira via microscópica de circulação pelo organismo.
Não se trata de um novo órgão, nem de vasos desconhecidos escondidos pelo corpo. A hipótese envolve algo muito mais microscópico —e, ao mesmo tempo, espalhado por praticamente todos os tecidos humanos.
Em um estudo publicado na revista científica Communications Biology, do grupo Nature, pesquisadores descreveram evidências de que espaços intersticiais talvez formem uma rede integrada atravessando pele, músculos, intestino, nervos, vasos sanguíneos e estruturas profundas do organismo. Esses espaços já eram conhecidos pela anatomia, mas tradicionalmente eram vistos como compartimentos separados dentro de cada tecido.
A comparação com um “terceiro sistema circulatório” surgiu porque os autores sugerem que esses espaços possam atuar como uma via paralela de circulação de fluidos, moléculas e células pelo corpo.
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A descoberta começou com tatuagens

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Um dos achados que mais chamou atenção dos pesquisadores surgiu a partir da análise de amostras de pele tatuada.
Ao examinar os tecidos, os cientistas perceberam que partículas de tinta haviam migrado para muito além do local onde deveriam permanecer. Em vez de ficarem restritas à camada superficial da pele, elas apareciam em tecidos mais profundos, atravessando espaços microscópicos até alcançar estruturas abaixo da pele chamadas fáscias.
Os pesquisadores observaram fenômeno semelhante em amostras de intestino. Partículas usadas para marcação durante colonoscopias foram encontradas atravessando diferentes camadas do órgão e alcançando regiões profundas do abdômen.
A equipe também rastreou a presença de ácido hialurônico —substância capaz de reter água nos tecidos— e identificou uma continuidade desses espaços microscópicos entre diferentes regiões do corpo.
Como seria esse ‘terceiro sistema’
Os pesquisadores descrevem o interstício como uma espécie de rede microscópica espalhada pelo corpo.
Ela seria formada por feixes de colágeno —proteína que dá sustentação aos tecidos— organizados como uma malha tridimensional. Entre essas fibras existem pequenos espaços preenchidos por água, sais, proteínas, células do sistema imune e ácido hialurônico, substância conhecida por sua capacidade de reter líquido.
Os cientistas usam a imagem de uma tela de arame mergulhada em gel para descrever a estrutura.
É por esses microcanais que fluidos e moléculas circulariam lentamente entre os tecidos. Segundo os autores, esses trajetos acompanham vasos sanguíneos, nervos e camadas de tecido conjuntivo, formando caminhos microscópicos que podem ligar diferentes regiões do corpo.
A principal mudança de interpretação está aí. Durante muito tempo, a anatomia tratou esses espaços como compartimentos isolados dentro de cada órgão. A nova hipótese sugere algo diferente: que eles façam parte de uma rede contínua espalhada pelo organismo inteiro.
Pesquisadores acreditam que o interstício pode ajudar a explicar como alguns cânceres conseguem se espalhar pelo corpo antes de atingir vasos sanguíneos ou linfáticos.
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O que isso pode mudar na medicina
O impacto potencial da descoberta vai muito além da anatomia.
Pesquisadores acreditam que o interstício pode ajudar a explicar como alguns cânceres conseguem se espalhar pelo corpo antes mesmo de atingir vasos sanguíneos ou linfáticos. O estudo descreve tumores se movimentando entre fibras do tecido conjuntivo usando caminhos já existentes no organismo.
A hipótese também pode ajudar a entender infecções graves que avançam rapidamente pelos tecidos profundos, como a fasciíte necrosante.
Outra linha de pesquisa investiga se essa rede participa da comunicação entre intestino, fígado e cérebro. Cientistas suspeitam que bactérias, fragmentos bacterianos e células do sistema imune possam usar esses trajetos microscópicos para circular entre órgãos.
Os autores também levantam a hipótese de que o interstício funcione em paralelo aos sistemas cardiovascular e linfático, ajudando no transporte de fluidos e sinais biológicos pelo organismo.
A estrutura já era conhecida, mas a interpretação mudou
No estudo, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: ninguém descobriu um “novo órgão”.
O interstício já era conhecido pela anatomia. O que mudou foi a interpretação sobre o funcionamento desses espaços.
A principal proposta do estudo é que eles talvez não sejam compartimentos separados, mas parte de uma rede contínua espalhada pelo corpo.
Também não há consenso científico para classificá-lo oficialmente como um “terceiro sistema circulatório”. A expressão passou a ser usada para descrever o possível papel funcional dessa rede microscópica.
Ainda assim, ele reforça a possibilidade de que estruturas consideradas secundárias durante séculos tenham um papel muito mais central no funcionamento do corpo humano.

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