Como os cortes de Trump podem ter agravado o surto de ebola

Como os cortes de Trump podem ter agravado o surto de ebola


O caixão de uma pessoa suspeita de ter morrido de Ebola é içado para uma caminhonete por um profissional de saúde em um hospital em Bunia, no leste da República Democrática do Congo, em 25 de maio de 2026
GLODY MURHABAZI / AFP
Desde a virada do milênio, quase todos os anos houve ao menos um surto de ebola na África, mas o atual é diferente.
A maioria deles, incluindo a devastadora epidemia na África Ocidental que matou cerca de 11 mil pessoas há pouco mais de dez anos, está associada à chamada cepa Zaire, para a qual existe uma vacina.
No momento, porém, está se espalhando uma variante mais rara, chamada Bundibugyo, em alusão à região em Uganda onde ela foi identificada pela primeira vez, em 2007. Para essa não há vacina nem medicamentos. E a taxa de mortalidade é alta: cerca de um em cada três infectados morre.
O atual surto no leste da República Democrática do Congo e em Uganda é o terceiro causado pela cepa Bundibugyo e também o mais letal. Até esta segunda-feira (25), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 900 casos suspeitos haviam sido identificados. Autoridades congolesas falam em mais de 200 mortes.
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“Estou profundamente preocupado com a dimensão e a velocidade da epidemia. Os números vão aumentar porque a resposta está sendo ampliada, incluindo melhor vigilância, rastreamento de contatos e testes laboratoriais”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus
Tedros declarou em 17 de maio uma emergência de saúde pública internacional logo após a confirmação do surto, sem a habitual consulta prévia a especialistas. Isso porque o vírus aparentemente já estava se espalhado havia semanas sem ser detectado.
Cortes do governo Trump sob crítica
O surto ocorre num momento em que as organizações humanitárias viram seus orçamentos drasticamente reduzidos, particularmente como resultado dos cortes nos gastos com ajuda humanitária dos EUA, num dos primeiros atos do presidente Donald Trump após ele voltar ao cargo, em janeiro de 2025.
Isso levou especialistas em saúde a questionar se o surto teria sido identificado mais cedo se os EUA não tivessem reduzido drasticamente sua contribuição à saúde global.
O Comitê Internacional de Resgate, uma organização humanitária sediada nos EUA e que atua no leste da República Democrática do Congo, afirmou que os cortes realizados pelo governo Trump em 2025 a obrigaram a reduzir suas atividades de prevenção na província de Ituri. “Os cortes de financiamento deixaram a região perigosamente exposta”, declarou a diretora do grupo no país, Heather Reoch Kerr.
Ela acrescentou que a alta repentina nos casos ocorre porque os sistemas de detecção estão agora alcançando o ritmo de uma transmissão que provavelmente já vinha ocorrendo há algum tempo.
Surto pode ser maior
O epidemiologista americano Eric Feigl-Ding disse que os casos confirmados são apenas a “ponta do iceberg” e que a propagação está ocorrendo mais rapidamente do que no surto de 2014 na África Ocidental.
“O vírus já matou profissionais de saúde e se espalhou rapidamente por várias regiões. Mesmo com pouca testagem, encontramos muitos casos. Isso indica que o surto é maior do que parece”, declarou.
O ebola é transmitido por contato direto com pessoas infectadas ou com seus fluidos corporais, o que limita sua propagação em comparação com a covid-19. Em tese, a variante Bundibugyo poderia ser contida com medidas como quarentena, testagem e rastreamento de contatos.
“Tudo depende da rapidez [de reação] – e nós já não a temos”, destacou Feigl-Ding. Ele aponta que a agência americana USAid antes atuava rapidamente, distribuindo medicamentos e apoiando equipes locais – algo que, segundo ele, deixou de acontecer. “Esse é um exemplo do que acontece quando se enfraquece a infraestrutura de saúde.”
O especialista Matthew Kavanagh, da Universidade de Georgetown, disse que os cortes de financiamento enfraqueceram os sistemas concebidos para detectar surtos precocemente. “Quando se retiram bilhões da OMS e se desmantelam programas de linha de frente da USAid, corta-se exatamente o sistema de vigilância destinado a detectar esses vírus em estágio inicial”, afirmou.
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Cortes na USAid e saída da OMS
A agência de desenvolvimento americana USAid tornou-se um símbolo dos cortes implementados por Trump após o seu retorno à Casa Branca.
Por decreto, o governo suspendeu por 90 dias os repasses e revisou sua utilização. Muitos funcionários foram demitidos, e cerca de 90% dos recursos chegaram a ser cortados temporariamente.
Embora o Congresso tenha depois restaurado parte do financiamento, as interrupções deixaram impactos. Ao mesmo tempo, países europeus (incluindo a Alemanha) também reduziram suas contribuições para a cooperação internacional.
O bilionário Elon Musk, à frente do chamado Departamento de Eficiência Governamental (Doge), foi responsável por parte dessas medidas. Em fevereiro de 2025, ele admitiu ter encerrado “por engano” programas de combate ao ebola. Segundo o jornal The New York Times, nem todos foram retomados, o que teria agravado um surto anterior em Uganda.
Além disso, Trump determinou a saída dos EUA da OMS – uma medida que entrou formalmente em vigor um ano depois. Antes disso, os EUA eram um dos principais financiadores da organização, com mais de 1,2 bilhão de dólares apenas entre 2023 e 2024.
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA também sofreu cortes significativos: cerca de 25% do pessoal foi demitido e 35% dos contratos foram cancelados em 2025. Segundo a imprensa americana, especialistas importantes no combate ao ebola chegaram a ser demitidos por engano e depois reintegrados. Atualmente, o CDC afirma que mais de 30 de seus funcionários atuam na República Democrática do Congo.
Governo Trump rebate críticas
O governo Trump rejeita as acusações de que os cortes na ajuda externa dos EUA teriam impactado a resposta ao ebola. “É falso afirmar que a reforma da USAid tenha tido uma impacto negativo na nossa capacidade de responder ao ebola”, afirmou o porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott.
Na semana passada, o Departamento de Estado anunciou que vai financiar até 50 clínicas de tratamento na República Democrática do Congo e em Uganda. “Este anúncio deve enviar uma mensagem clara: os Estados Unidos têm um compromisso inabalável em garantir que esta resposta seja plenamente dotada de recursos, rápida e cooperativa”, afirmou o departamento.
Ao mesmo tempo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, criticou a OMS ao afirmar que ela “demorou um pouco para identificar” o surto.
Em resposta, Tedros disse que a crítica mostra “uma falta de compreensão” sobre como funcionam os regulamentos internacionais de saúde e as responsabilidades da OMS. “Nós não substituímos o trabalho dos países; apenas os apoiamos.”
Condições difíceis favorecem avanço
Para além da redução de recursos humanitários, que afeta diretamente a contenção do surto, a diretora da ONG Ação contra a Fome na República Democrática do Congo, Julie Drouet, ressaltou haver outros fatores importantes: a variante Bundibugyo é mais rara e inicialmente não foi detectada nos testes, e os primeiros casos ocorreram em regiões remotas, longe de centros de saúde. Isso permitiu que o vírus se espalhasse por mais tempo sem ser identificado.
A situação é agravada pela instabilidade no leste do Congo, especialmente nas províncias de Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri. Grupos armados atuam na região, e deslocamentos de população dificultam tanto o controle da doença quanto o trabalho de ajuda humanitária.
Apesar disso, equipes médicas seguem atuando intensamente na área. “Estamos fazendo tudo para conter o surto, incluindo a criação de pontes aéreas humanitárias para levar ajuda”, disse Drouet.
Casos já foram registrados na cidade de Goma, no leste da República Democrática do Congo, e também na capital de Uganda, Kampala. Ambas têm alta densidade populacional, o que aumenta o risco de disseminação rápida.
A OMS já liberou uma primeira ajuda de 3,9 milhões de dólares para apoiar os sistemas locais de saúde. Especialistas pedem que governos de todo o mundo ampliem esse financiamento para conter o surto antes que ele se agrave ainda mais.

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